Nilton Fukuda/AE
Nilton Fukuda/AE

Um corpo de cristal, a quimera de tunga

Artista remonta aqui as instalações da Bienal de Moscou e do Louvre

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2010 | 00h00

Na terceira edição da Bienal de Moscou, realizada entre setembro e outubro do ano passado, o artista pernambucano Tunga surpreendeu os russos com frascos de laboratório contendo um líquido âmbar como urina, presos com ímãs a estruturas metálicas - corpos que sustentavam fálicos pedaços de cristal e simulacros de fezes. A instalação, Cooking Crystals, foi refeita e é mostrada, a partir de hoje, na Galeria Millan, em nova versão e título ampliado, Cooking Crystals Expanded, junto a uma nova série de obras autônomas, Cristalinos, também feita do mesmo material, cristal de rocha. Composta de dois portais, uma escultura de chão e 12 de parede, a série reforça a qualidade evocativa desses objetos, encarando-os como peças de um intricado jogo de conhecimento carnal, em que a natureza é revelada em sua plenitude erótica - ou escatológica, conforme o olhar do visitante.

O contraponto das duas salas que a Galeria Millan abriu para os novos trabalhos de Tunga é a instalação À La Lumière de Deux Mondes, exposta em Paris e agora no Museu Rodin de Salvador (leia texto abaixo). Crânios de bronze e dourados, presos em malhas de aço, sugerem uma instalação de culto tanatológico que atrai e ao mesmo tempo repele o espectador, desafiado a ver a obra segundo seus códigos culturais - e quatro milhões de visitantes de todos os países passaram sob a pirâmide do Louvre, em 2005, para ver as caveiras de Tunga, cuja capacidade de evocar e sugerir experiências alheias é assustadora. A despeito de não ser um cientista, ele usa a mesma estratégia para atrair o olho. Tem, enfim, compulsão de explorar o desconhecido.

A instalação Cooking Crystals, aliás, trai essa compulsão científica já a partir dos frascos alquímicos e de sua origem, uma obra anterior chamada Almas Laminadas, caracterizada por uma investigação de dois olhares simétricos, o do cientista que examinava bichos num microscópio e o do espectador que experimentava a sensação de ser observado como a um inseto - ou um sapo. Desse jogo de oposições e de dimensões - gulliveriano versus liliputiano - nasceu a possibilidade de explorar signos ambíguos como o cristal fálico sendo preparado nessa cozinha-laboratório mais ou menos sádica. Nela, a experiência de transmutação de elementos tem tudo a ver com o ato sexual e escatologia.

Tunga e Santo Agostinho lembram que nascemos entre fezes e urina, mas a sociedade esconde esses excrementos por não serem "civilizados". Pois bem: a barreira dos dejetos é quebrada numa galeria e, brevemente, nas telas. O artista, também cineasta, assina a direção de Cookery, que um curador estrangeiro acabou de selecionar para uma mostra internacional de filmes pornográficos assinados por artistas. Nele, um casal em núpcias alquímicas embarca numa orgia escatológica em que homem e mulher bebem a urina e comem as fezes um do outro. Num surto lascivo, a mulher faz um fellatio num enorme pedaço de cristal que, por magia, vira um pedaço de gelo dissolvido em sua boca, deixando o parceiro eunuco. "É uma possibilidade de desculturalizar a coisa biológica, pensar com outro olhar, desviado das funções reprodutivas", observa o artista.

Como Tunga nunca foi explícito como Damien Hirst, ele recorre à elipse e a um conceito artaudiano, de que homem tem sua geografia e que esse território tem de ser explorado como um corpo esquartejado, mutilado, para alimentar o desejo sádico do olhar científico. Artaud, que Tunga preza tanto como a Sade, sentia-se esfolado pelos médicos dos manicômios por onde passou."O desafio é lançar mão de um material "vulgar", que passa pelo pensamento romântico", diz, referindo-se ao cristal, usado como simulacro de pênis no filme, mas também como signo da transcendência num poema do romântico alemão Friderich Hölderlin, Vom Abgrund nemlich (Começando no Abismo). Hölderlin usou igualmente a imagem do cristal como simulacro de órgãos. Disse que falar da natureza é tomar sua forma - a forma humana - e que o coração é um cristal na qual a luz se prova. Como duvidar?

QUEM É

TUNGA

ARTISTA PLÁSTICO

Nascido em Palmares (PE)em 1952, é um dos nomes principais da arte mundial, presente em coleções dos maiores museus da Europa e EUA. Arquiteto de formação, já expôs suas esculturas na Documenta (1997) e, mais recentemente, no Louvre.

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