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Um copo sem cólera

O cronista absolve um suposto causador de naufrágios conjugais: o copo de requeijão

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2017 | 02h00

Olhe em torno e repare: há coisas que, de tão incorporadas à nossa vida, a gente pode achar que sempre existiram, sem que tenham sido inventadas por alguém.

 

Era esse o assunto em nossa mesa de boteco (falar nisso: quem foi que inventou a mesa?), naquela altura da noite em que, já sem motivo consistente para estar ali, mas sem ânimo para os arremates, você vai remanescendo. E tome papo sobre inventação.

Alguém sacou, como exemplo de coisa que sempre teria existido, o escorredor de arroz - mas não, disse outro alguém, nosso especialista em miudezas, o escorredor foi bolado sim, e mais, por uma brasileira, a dona de casa Beatriz de Andrade, no início dos anos 1960. Além de alcançar o singelo objetivo inicial, o de lavar arroz, dona Beatriz conseguiu engordar sua conta bancária, pois uma indústria comprou a patente, o que lhe garantiu porcentual nas vendas. Mais lucrativo, só um dispositivo de lavar dinheiro.

Tanto quanto o escorredor de arroz, o item seguinte na conversa também contrariou a tese de que vários componentes de nosso cotidiano existem desde sempre. O mesmo especialista em insignificâncias nos esclareceu que a toalha de praia, sim, aquele retângulo de tecido sobre o qual, egressos das ondas, depositamos nossos úmidos bumbuns, teve, pelo menos no litoral carioca, seu inventor, um cavalheiro de nacionalidade britânica. A informação, ficamos sabendo, está devidamente estribada em bibliografia, o delicioso livro de Ricardo Boechat sobre o Copacabana Palace.

 

Interrompa aí a leitura dos poetas gregos para se inteirar do relevante fato de que, correndo o ano de 1902, passou pela então quase erma praia de Copacabana o barbeiro Wallace Green, o qual, vindo de escanhoar as bochechas de um freguês, resolveu dar um mergulho. Sentindo falta de algo em que se esticar na areia, recorreu Green à sua toalha de fígaro - iniciativa que não tardou a ser macaqueada por banhistas nativos, abrindo caminho para que na esteira viesse, além da canga, a esteira de praia propriamente dita.

*

A lembrança daquela profícua noitada cultural de bar me veio há pouco, ao ser informado do falecimento, em Poços de Caldas, do Sr. Moacyr de Carvalho Dias. Não o conhecia, e soube então que era tio de um querido amigo, o Teodoro.

Na internet e nos jornais, deu-se destaque ao fato de ter sido o Sr. Moacyr o criador de um dos itens mais arraigados no dia-a-dia dos brasileiros, o requeijão em copo. 

Compreendi, de imediato, por que tanta gente viera dar-me notícia do passamento do industrial mineiro. Voltou-me, em detalhes, uma história que, faz uns 15 anos, me valeu doses iguais de satisfação e aborrecimento.

Tendo uma revista feminina me pedido uma crônica, tive, à falta de assunto menos prosaico, a ideia de escrever sobre o copo de requeijão, objeto que, àquela altura, me pareceu simbolizar os descuidos e malfeitos que podem pôr a pique uma relação amorosa.

 

Imaginei um dos membros do casal pedindo ao outro um copo d’água, e essa água vindo, não no melhor cristal, como no início do romance, mas num copo de requeijão. Algo de preocupante, observei, talvez irreversível, havia se passado para que a vulgaridade se insinuasse naquele par; e convinha estar atento ao fato de que, tal como no alcoolismo, nunca se fica no primeiro copo. 

Sentencioso, fui em frente: ninguém compra o copo, compra o requeijão, mas, esgotado o conteúdo, o continente vai ficando, até por inércia - como, aliás, um pessoal no bar em fim de noite. E, ao contrário dos recipientes de cristal, raramente se quebra. No espólio de um casamento, ninguém briga por ele; e se a separação não dá certo, nem para um brinde serve, pois entre dois copos de requeijão não há tim-tim possível, só um chocho tec-tec.

 

Eu não sabia que, com a minha filosofice de guarda-louça, estava cutucando um vespeiro. Se várias leitoras concordaram com o judicioso cronista, a maioria despejou sobre ele, não copos, mas baldes de desaforos, de “elitista” para baixo. Só faltou quem me tocaiasse na rua com uma saraivada de recipientes de requeijão cremoso, acrescentando a eles mais uma utilidade.

Do alto do organograma de uma grande fábrica de artigos de vidro, um executivo farejou “ofensa” e enviou à redação uma diatribe que chegou às minhas mãos e ainda guardo. “Como o copo de requeijão não fala nem escreve”, reagiu o missivista, “e, portanto, não pode se defender, nós, que fabricamos milhões deles por ano, vamos fazê-lo.” E fê-lo, diria o Temer: “O autor foge do tema, que é a deterioração da vida a dois, e parte para a agressão ao copo de requeijão, pobre coitado que está, creiam, trabalhando direitinho e cumprindo bem o seu papel.” Quem duvidaria?

Tantos anos depois, talvez seja hora de baixar a bola e liberar o vítreo vilão de qualquer responsabilidade no naufrágio da mais vacilante das uniões conjugais. A melhor prova de que fui injusto seria o próprio Sr. Moacyr, visto que o criador do copo de requeijão, me conta o sobrinho Teodoro, viveu um casamento de quase 70 anos, não só feliz como frutificado em copiosa descendência.

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