Um controverso libelo da crítica

Lançado em 1989, O Sequestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira, de Haroldo de Campos, ganha nova edição; estudo analisa o lugar da poesia de Gregório de Matos e Guerra

Alcides Villaça, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2011 | 00h00

O "tédio à controvérsia", forma de evasão tantas vezes simulada pelo ácido narrador machadiano, não é um bom lema para a crítica, embora seja uma tentação convocá-lo quando o debate cultural se restringe a demarcar territórios pessoais. O aguerrido ensaio de Haroldo de Campos, cujo título é especificação de tese (O Sequestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: O Caso Gregório de Matos, 1989, agora em nova edição), aciona uma profusão de suportes eruditos e se investe de um propósito cultural que ultrapassam em muito o capricho da demarcação de terreno, sem de todo renunciar a esta. O tom é assumidamente o de um processo acusatório, em que o delito (sequestro) e a vítima representada (Gregório de Matos) são trazidos ao julgamento do responsável, o crítico Antonio Candido, autor da Formação da Literatura Brasileira - Momentos Decisivos, 1959). A rigor, o que Haroldo de fato argui é a consistência do método exposto nas sucintas páginas do capítulo Introdução, do que decorreria a exclusão dolosa; é de se presumir que as análises verticais de obras e autores brasileiros dos séculos 18 e 19, que ocupam os dois volumes e constituem o propósito maior de seu autor, padeceriam da inconsistência daquele pecado original.

O que logo chama atenção do leitor é a diferença de estilo dos dois críticos: a linguagem de Antonio Candido flui como numa linha clara, contínua e persistente, na tradição da esquerda para a direita, em argumentação sucessiva; a de Haroldo de Campos produz uma multiplicação de pontos conceituais que vão e voltam no discurso, qual um arrazoado em espiral. Não resisto à especulação de que esses estilos refletem os modos pelos quais os autores compreendem o tempo da história e da cultura: na perspectiva de Candido, a formação da continuidade literária se dá por meio de um vínculo orgânico entre autor, obra e público, elementos ativos de um sistema ao mesmo tempo social e estético; na perspectiva de Haroldo, sobretudo as obras se comunicam numa temporalidade aberta, constelando-se como fatos de linguagem em que o teor de invenção transcende o quadro temporal. Em duas palavras: a perspectiva diacrônica é rechaçada pela sincrônica.

Dessa matriz de divergências decorrem, mais particularizados, os óbices que Haroldo vê no método de Candido: o primado do "finalismo" num sistema cuja linearidade faria supor um "enredo metafísico", um "habitáculo do Logos", uma "teleologia naturalista" e outros atributos em razão dos quais a acusação recai sobre o que considera uma "generalização do modelo romântico e sua absolutização em modelo da literatura". Como ao Romantismo não falta nacionalismo, a concepção de sistema de Candido acaba sendo também identificada como um tributo à emancipação nacional em processo naquele período, concepção de que teria resultado o sequestro do Barroco e, com este, o de Gregório de Matos. Também para esse ponto cabe ao leitor da Formação verificar se o estudo das obras e autores dos séculos 18 e 19 se ressente, e em qual escala, desse viés nacionalista (ou, como prefere Haroldo, do determinismo dessa "entificação nacional").

O leitor também avaliará a justeza e a justiça do processo movido por Haroldo, avaliação que dependerá, como sempre, de um ajustar de contas com pressupostos críticos, cuja complexidade e largueza, em cada intérprete, talvez deva ser a primeira questão para o próprio intérprete. As razões e pressupostos de Candido transparecem na enunciação do método, exposto à ofensiva de discordâncias tão localizadas como liminares; as de Haroldo têm múltiplos apoios - em Derrida, Jauss, Jakobson e Octavio Paz, entre outros - e tomam as obras literárias como invenções abertas no horizonte, interpretáveis à luz de uma "poética da sincronicidade". O critério de arte de vanguarda, com o qual Haroldo terá nutrido parte importante de sua formação crítica, surge funcionalista e sistêmico a seu modo: ganham relevo, por exemplo, a função poética e a metalinguística do modelo comunicativo de Jakobson. Torna-se intolerável para essa perspectiva a omissão de um poeta cujo trunfo está justamente no alto desempenho de procedimentos lúdicos, mormente os de uma sátira identificada como transgressão inventiva de um código. Sempre dentro da ordem constelada e sincrônica, os inventores se comunicariam entre si e por si mesmos, produzindo tanto antecipações proféticas como filiações preventivas. Os efeitos do sequestro teriam ficado como provocação para a vanguarda daqueles anos 50 e 60, em que se antevia um país moderno nos trópicos.

O ensaio de Haroldo lembra possibilidades interessantes de uma revisitação ao "caso" Gregório de Matos: em qual público de fato ecoaria, e de que modo, a voz de seus poemas? Quanto houve, para além do protocolo retórico do Barroco e das liberdades do humor, de efetiva invenção e genialidade nas linguagens do poeta? E há a lição de sempre, depreendida do libelo e da matéria contestada: fazer crítica supõe escolha e descarte de critérios, e não há ângulo que deixe de possibilitar, em qualquer caso, alguma sensação de sequestro - de um autor, de um método, de uma perspectiva histórica.

ALCIDES VILLAÇA É PROFESSOR DE LITERATURA BRASILEIRA NA USP

O SEQUESTRO DO BARROCO

Autor: Haroldo de Campos

Editora: Iluminuras

(96 págs., R$ 35; nas livrarias dia 21/3)

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