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Um conto do 1756

Juro que aconteceu, mas não foi comigo. Quem me contou foi um cidadão de boa índole, e por sinal muito cioso dos detalhes, no qual os senhores leitores podem confiar (Ok, confesso: foi a minha mãe).

Vanessa Barbara, O Estado de S.Paulo

22 Setembro 2014 | 02h05

Um senhor subiu no ônibus quase vazio, lá pela altura do Imperatriz, com um volume qualquer enrolado numa blusa, e sentou num dos bancos da frente. O ônibus seguiu caminho, feliz e balouçante, até parar num engarrafamento a quinhentos metros dali.

Ninguém pareceu se abalar com o trânsito saturado de automóveis, algo bastante normal por aquelas bandas. Apenas aguardavam com a paciência de sempre, olhando pelo vidro e pensando na vida.

Foi quando um segundo elemento, tresloucado e esbaforido, trajado com elegância, materializou-se na calçada da direita. Falava ao celular e gesticulava para o senhor que estava sentado à janela, mas não deu para entender o que estava se passando. De dentro do ônibus, este apenas fazia "não" com o dedo, entre zombeteiro e seguro. "Não, não", ele repetia, mudo.

O ônibus finalmente arrancou e virou uma rua, a galope. A cena já teria se esvaído da mente dos passageiros, catalogada na classe de "incidentes urbanos a esclarecer", quando o camarada com a blusa na mão levantou-se de súbito e gritou para que o motorista parasse no ponto - como se a vida de sua blusa dependesse disso.

Julgando prudente obedecer ao passageiro, talvez detectando um certo nível de urgência naquela situação, o condutor estancou e o senhor da blusa desceu pela porta da frente. Saiu correndo.

Atônito, o motorista nem fechou a porta e continuou preso no tráfego - até que, surpresa!, o homem elegantemente trajado tornou a se materializar na calçada ao lado do ônibus, tal qual um justiceiro de faroeste. Houve quem cogitasse uma aparição sobrenatural.

Desta vez ele carregava um notebook. Da calçada, ainda ofegante, explicou ao motorista que havia sido assaltado no escritório, e que tinha visto o bandido subir no 1756. Munido de um furor reparatório, partiu ao encalço do meliante, talvez correndo e tomando táxis sucessivamente, até que conseguiu reconhecer o ladrão na janela e este se apavorou, descendo do coletivo em disparada.

Após curta perseguição, o homem conseguiu agarrá-lo na rua e recuperou o computador roubado.

Tudo isso o cobrador recontou aos passageiros mais distraídos, em meio a comentários gerais. O coletivo arrancou mais uma vez. Dobrou a esquina da avenida Cruzeiro do Sul e, nesse meio tempo, até chegar ao ponto final, o motorista ainda conseguiu entreter a plateia com uma peripécia de sua lavra, segundo a qual fora certa vez assaltado e, quando o infrator deu as costas, tascou uma ratoeira extragrande recém-comprada na cabeça do infeliz.

Nada mais emocionante do que um bom congestionamento.

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