Um conto de fadas, mas carregado de violência

Mesmo o mais distraído dos espectadores vai se dar conta disso. O diretor Nicolas Winding Refn não filma o carro do personagem de Ryan Gosling de fora. A câmera está sempre dentro, colada ao herói, e não raro o filme oferece seu ponto de vista. No Festival de Cannes do ano passado, onde Drive ganhou o prêmio de direção, Refn chegou a dizer que o carro é o verdadeiro personagem da história. Não é - Gosling ouve, o tempo, A Real Hero, do College, e Night Call, de Kavinsky. São pistas mais do que evidentes.

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2012 | 03h10

Gosling interpreta um dublê de filmes que, à noite, trabalha como motorista para criminosos. E ele é, ou vai ser, um herói de verdade. Como? Embora jovem, Refn virou cult no cinema da Dinamarca graças a uma trilogia de gângsteres - Pusher - e a uma epopeia, O Guerreiro Silencioso, com Mads Mikkensen. Esses filmes chamaram a atenção de Hollywood e Winding Refn foi chamado para dirigir um roteiro de Paul Schrader, The Dying of the Light, que seria interpretado por Robert De Niro. O astro teve de desistir. Entrou Harrison Ford, que também abandonou o barco. Foi quando Ryan Gosling chamou o diretor para conversar sobre Drive.

Era um projeto que já rolava havia uns cinco anos. Adaptado do livro de James Sallis, distanciara-se do original para virar um filme de corridas, na linha de Velozes e Furiosos. O encontro com Gosling foi cordial. Conversaram sobre 'chicks' (garotas), mas Refn confessou que não tinha carta nem interesse em carros. Não parecia talhado para o projeto. Gosling lhe ofereceu carona para o hotel. A trilha era um hit dos anos 1980, de REO Speedwagon, I Can't Fight This Feeling. Refn não sabe até agora porque começou a chorar. Gosling consolou-o. E, ali, naquele momento, ele viu tudo - o personagem, o filme, o sentimento que o consumia.

Como thriller, Drive é violento. Gosling mata um homem a patadas, dentro do elevador. Você chega a ouvir o barulho do crânio se despedaçando. Mas esse homem violento não perde a ternura, jamais. Winding Refn, influenciado pelos livros infantis que lia para o filho, encarou seu thriller como um conto de fadas. "Acho que só Uma Linda Mulher havia feito isso na produção recente de Hollywood. O filme era Cinderela, versão atual. Eu imediatamente visualizei Drive como o meu conto de fadas. Temos um cavaleiro andante, a dama a quem ele protege, seu filho, um rei deposto, o vilão ameaçador."

Uma revista francesa (Première? Studio?) não deixou por menos e disse que não é o menor dos méritos de Drive expor o segredo mais bem guardado do cinema norte-americano. Ryan Gosling é charmoso, viril - e canadense. Ele veste a pele do herói e sua jaqueta branca lhe confere uma aura angelical, exceto pelo fato da tatuagem do dragão, que introduz um elemento ambíguo de erotismo e violência.

Como dono do projeto, Gosling transferiu seus poderes para Winding Refn e lhe deu carta branca. Como o diretor não conhecia Los Angeles, ele foi seu cicerone, em busca de locações. Tudo isso, Lee Marvin havia feito com John Boorman em À Queima-Roupa, nos anos 1960. Foi um dos modelos assumidos do filme, por mais que lembre Taxi Driver, de Martin Scorsese - o que também explica o entutiasmo de De Niro, presidente do júri em Cannes, 2011.

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