Um concerto executado com palavras

No romance A Valsa dos Adeuses, que ganha uma nova edição no Brasil, o checo Milan Kundera explora formas musicais

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2010 | 00h00

A música é palavra-chave na criação literária do checo Milan Kundera. Acompanha-o desde a infância. Seu pai era musicólogo de destaque em Praga e Kundera estudou com Pavel Haas, um dos melhores alunos de Leos Janacek (que morreu na câmara de gás em Auschwitz, em outubro de 1944 e só nos últimos 20 anos teve sua interessante criação musical executada e gravada). É possível ouvir música tanto nos romances como nos vários livros de ensaios do escritor. Portanto, falar de musicalidade na sua ficção não é novidade. Uma de suas sacadas mais repetidas é de que a musicalidade se tornou uma das marcas da arte do romance no século 20. Musicalidade erudita, entenda-se. Assim, personagens brincam com detalhes do quarteto de cordas opus 131 de Beethoven na Insustentável Leveza do Ser, seu romance mais famoso - e, em dezenas de ensaios, Kundera fala com propriedade e atrevimento consistente de compositores como Stravinsky, Schoenberg, Xenakis e seu ídolo máximo, Janacek.

A Valsa dos Adeuses (1973) - romance publicado aqui pela editora Nova Fronteira em 1989 e agora relançado pela Companhia das Letras em sua coleção de bolso, com tradução revista e atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa - tece uma variação ao instituir o trompetista de jazz Klima como personagem principal. São várias as camadas narrativas simultâneas que Kundera maneja com maestria nesse livro: Ruzena, a enfermeira do spa de uma cidade balneária checa que engravida em uma noite de amor com o protagonista, depois de uma apresentação dele no Pavilhão Karl Marx; o médico local, Dr. Skreta, baterista de jazz nas horas vagas, que inocula o seu próprio sêmen em todas as mulheres em que faz tratamento de fertilidade, gerando centenas de filhos que jamais conhecerão seu verdadeiro pai; o cientista Jakub, que conseguiu visto para sair do país e decidiu devolver ao amigo médico o comprimido de veneno que este lhe dera décadas antes, para o caso de uma situação-limite, evento comum em regimes totalitários e clichê de espiões de todos os matizes; a esposa mal-amada que de repente descobre que seu mundo não acabara; o mecânico apaixonado pela enfermeira que também se considera o pai.

Como a música que lhe vai pelas entranhas, Kundera jamais é ideologicamente linear. Não faz o tipo do dissidente exilado que fugiu do regime totalitário e cospe no prato que comeu; muito menos justifica o circo de horrores de seu país durante o período em que esteve sob a guarda ideológica da União Soviética. A certa altura, uma das personagens verbaliza esta dura reflexão: "Vou lhe contar a mais triste descoberta da minha vida - os perseguidos não valem mais do que os perseguidores (...). Chegar à conclusão de que não há diferença entre o culpado e a vítima é perder toda a esperança. E é isso que se chama inferno, querida."

Particularmente interessantes são as páginas finais do romance, em que a intromissão do tom de ensaio se intensifica na trama. Kundera discute as afinidades de Jakub - que está se despedindo a conta-gotas de seu país - com Raskolnikov, o célebre assassino dostoievskiano. Ele sabe que "vivia num mundo em que as pessoas sacrificavam a vida dos outros por ideias abstratas" e, no redemoinho, sua argumentação o leva a constatar que "todo homem deseja a morte de um outro e que só duas coisas o desviam do homicídio: o medo do castigo e a dificuldade física de levar a pessoa à morte (...). Se todo homem tivesse a possibilidade de matar secretamente e a distância, a humanidade desapareceria em alguns minutos".

A escrita musical de Kundera é moderna até no sentido técnico: em vez de fazer uma convencional e plácida coda final que qualquer compositor do período clássico adotaria, ele introduz um novo e surpreendente ingrediente inconclusivo, deixando-nos em suspenso. Como, aliás, era costume de seu ídolo Leos Janacek, um compositor que fez da justaposição brusca, sem transições, de blocos musicais uma forma de afirmar um antilirismo bem próximo da acachapante dedução de Jakub de que, afinal, somos todos inúteis Raskolnikovs.

JOÃO MARCOS COELHO É JORNALISTA E CRÍTICO MUSICAL, AUTOR DE NO CALOR DA HORA (ALGOL)

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