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Um combatente da paz

Ele vai fazer falta a nós todos, mas sobretudo a Israel: poucos israelenses fizeram tanto por seu país quanto Amós Oz

Mario Vargas Llosa, O Estado de S. Paulo

09 de janeiro de 2019 | 02h00

Conheci Amós Oz em novembro de 1976, em minha primeira viagem a Israel. Visitei-o no kibutz Hulda, onde estava desde os 14 anos (sua mãe havia se suicidado dois anos antes). Seu primeiro romance, de título intraduzível em espanhol – Quizás en Otro Lugar (Talvez em outro lugar) seria o mais aproximado –, havia provocado grande controvérsia em seu país porque nele Oz fazia uma minuciosa análise da vida nesses pequenos bolsões idealistas – os kibutz – que buscavam, como disse mais tarde com ironia, “criar pessoas boas e saudáveis sem nem sequer suspeitar que nós, seres humanos, não somos nem bons nem saudáveis”.

Oz vivia modestissimamente em uma casinha de madeira e levantava-se ao nascer do sol para lavrar a terra com as mãos. No entanto, estava muito contente porque os dirigentes do Hulda lhe permitiam dedicar as tardes a escrever. Era jovem, otimista, incansável, e acho que desde o primeiro momento ambos soubemos que seríamos bons amigos. Nas sete ou oito vezes que estive em Israel sempre nos encontrávamos para jantar ou almoçar, e em encontros literários pelo mundo sempre arranjávamos um tempinho para tomar um café. Todas as vezes que eu disse que Israel era o único país em que sempre me senti um homem de esquerda, era pelas coisas que ali fazia, dizia e escrevia Amós Oz.

Tudo que ele escreveu – seus romances, ensaios, reportagens – tinha a ver com problemas reais e imediatos, e essa preocupação com a vida política e social, inevitável para um escritor israelense, não conflitava, em seu caso, com a excelência literária, como se constata nessa obra-prima que foi sua autobiografia, Uma História de Amor e Trevas (2002) e seu romance Meu Michel, traduzidos em quase todo o mundo. Ao mesmo tempo que um grande escritor, foi um lutador encarniçado pela paz e um dos fundadores do movimento Paz Agora, que, nos anos 1980, chegou a ter milhões de seguidores em Israel. Lutou toda a vida pela paz entre israelenses e palestinos porque conhecia os estragos terríveis que causam as guerras, já que havia participado de duas, a Guerra dos Seis Dias e a Guerra do Yom Kipur.

Era um sionista convicto e confesso porque acreditava que os israelenses tinham direito a ocupar uma terra à qual estavam ligados historicamente e um país que haviam construído, mas seu sionismo não o impedia de ver as injustiças cometidas pelos colonos nos territórios ocupados. Por isso defendeu até o fim de seus dias a ideia de dois Estados – um israelense e outro palestino – apesar de muitos de seus antigos amigos, após a direitização tão atroz experimentada pelo governo israelense e o canceroso crescimento dos assentamentos ilegais nos territórios ocupados, já a considerem quase impossível e tenderem a apoiar a ideia de um só Estado laico e compartilhado pelas duas comunidades. Amós Oz considerava essa solução irreal e inoperante (“isso, só na Suíça”, insistia), algo que o levou a distanciar-se politicamente de outro grande escritor israelense, A. B. Yehoshua, do qual havia sido grande amigo.

A última vez que o vi foi há uns dois anos, num almoço em Jerusalém. De tão apagado e silencioso, estava irreconhecível, ele que parecia a própria encarnação da alegria de viver e destilava energia por todos os poros. Era o câncer, sem dúvida, que começava a causar estragos em seu organismo. Eu atribuí seu desânimo ao tom sombrio que tinha aquela conversação, da qual participavam Yehuda Shaul, fundador do coletivo Breaking the Silence, no qual os próprios soldados denunciam os abusos cometidos pelo Exército de Israel; o romancista David Grossman – que sem dúvida sucederá a Oz como consciência moral de seu país – e Juan Cruz, de El País.

É verdade que não deve ser fácil ser um escritor laico e progressista em um país como Israel, onde em cada eleição voltam ao governo as mesmas pessoas e as mesmas políticas extremistas, graças a pequenos partidos de fanáticos religiosos – aos quais Amós Oz dedicou precisamente um de seus últimos ensaios – cujos votos garantem maioria ao governo no poder. Em Israel, a democracia existe e funciona de modo impecável para os israelenses (para os palestinos, certamente, não). Há liberdade de imprensa, não existe censura, os juízes são independentes e a vida política é variada, livre, muito intensa. Mas quando um visitante entra na Cisjordânia é outra coisa. As cidades e vilas palestinas estão praticamente cercadas pelos assentamentos ilegais, submetidas a um controle policial e militar rigorosíssimo e cortadas e divididas por um muro gigantesco que separa as famílias de suas escolas, campos de trabalho, etc. Sem dúvida que a ameaça do terrorismo é uma realidade e exige que se tomem precauções para evitá-lo. Mas a impressão que se tem é que Israel já excluiu de seu programa as negociações de paz e que a tese de Sharon – a paz somos nós que impomos – passou a ser, pura e simplesmente, a política de todos os governos israelenses. Essa possibilidade me parece ainda mais irreal e disparatada que a do Estado único. Porque ela só se sustentaria convertendo-se o diminuto Israel em uma anacrônica África do Sul dos tempos do apartheid, cercado de inimigos por todos os lados. 

Quando se acompanha a obra de um escritor como Amós Oz à medida que ela vai sendo produzida, percebe-se a importância de que a literatura se alimente do que são as preocupações e angústias – e também, claro as exaltações e alegrias – da gente comum, aquela que lê os livros e se reconhece neles, e ao mesmo tempo lhe permite distanciar-se desse mundo e encará-lo de uma perspectiva de maior alcance e profundidade. É isso que a grande literatura sempre foi: uma maneira melhor de compreender tudo aquilo que constitui a vida, de enriquecer a perspectiva dos fatos mais íntimos e pessoais – e, também obviamente, dos coletivos – e a maneira mais eficaz de substituir os estereótipos, preconceitos e lugares-comuns por ideias. Isso é o que Sartre dizia que devia ser a literatura em seu extraordinário ensaio Situations II, antes de desdizer-se e recomendar aos escritores africanos que renunciassem a escrever para primeiro fazer a revolução socialista e criar países nos quais a literatura fosse possível (se tivessem seguido esse conselho, os países africanos nunca teriam literatura).

Na homenagem que lhe prestou, Gideon Levy (que foi tão crítico das posições políticas de Oz) falou de “seu encanto, sua incrível modéstia, sua magia”. É verdade. A vaidade costuma ser muito praticada entre nós que nos dedicamos a escrever. Uma das exceções era Amós Oz. Raras vezes falava de seus livros, e quando não havia mais remédio, fazia isso minimizando-os e como se enfastiado por ter de fazê-lo. Uma vez o ouvi dizer que não entendia por que sua obra era tão conhecida em tantas partes e por tantos leitores diferentes. 

Ele vai fazer falta a nós todos, mas sobretudo a Israel: poucos israelenses fizeram tanto por seu país quanto Amós Oz. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

 

* É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

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