Sylvia Masini/Divulgação
Sylvia Masini/Divulgação

Um clássico revisitado pelo Balé da Cidade

Companhia contemporânea faz releitura para o romântico Giselle

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2010 | 00h00

Não há Lago dos Cisnes ou Bela Adormecida que lhe faça sombra. Ainda que a arte não seja propriamente o território da unanimidade, poucas são as vozes que se levantam em desacordo quando se trata de aclamar Giselle como o "balé entre os balés". Constantemente saudada como ponto máximo da dança romântica do século 19, a coreografia permanece revisitada por companhias do mundo inteiro e merece, a partir de amanhã, uma releitura do Balé da Cidade de São Paulo. Levada ao palco do Auditório Ibirapuera, a empreitada não é de pouco risco.

Ainda que parta de uma obra já bastante assimilada - tanto pelos bailarinos quanto pelo público - o Balé da Cidade trata de rever Giselle segundo novos paradigmas. Na hora de desenhar sua versão, o coreógrafo Luiz Fernando Bongiovanni, que também é diretor-assistente do conjunto, manteve muito do enredo com ares de contos de fadas e da técnica clássica que pauta sua composição, mas também não se furtou a lançar mão de outras referências.

Incorporou elementos da dança contemporânea (que é, afinal, o território onde o Balé se movimenta com mais desenvoltura), trouxe toques de artes marciais - especialmente da capoeira - e conseguiu até convocar lances de humor para matizar a funesta história de amor. "O traço tragicômico aparece como um respiro, como contraponto a alguns personagens", comenta Bongiovanni, que é ex-dançarino do Balé e se lança pela segunda vez à tarefa de atualizar uma obra clássica. Para o Balé Teatro Guaíra, de Curitiba, assinou em 2008 uma bem-sucedida recriação de Romeu e Julieta.

Outras alterações que podem surpreender a plateia se dão no tratamento dramatúrgico dado à peça. No libreto original, escrito pelo poeta romântico Théophile Gautier, Giselle é uma jovem ingênua. Tomada de amores por um camponês, enlouquece e morre ao descobrir que ele era, na verdade, um nobre que a enganara. Na montagem do Balé da Cidade, o público verá não apenas uma, mas três "Giselles", dançadas por Fernanda Bueno, Fabiana Fornes e Vivian Navega Dias.

O procedimento serve para quebrar a linearidade do espetáculo, mas também é um indicativo da visão bastante particular que o coreógrafo tem da heroína. "A tripartição da personagem principal tenta dar conta da imensa confusão de suas emoções", diz Bongiovanni. Outra função da alteração é trazer a primeiro plano os papéis masculinos, quase sempre obscurecidos pelo protagonismo de Giselle. "De certa maneira, é como se as três Giselles representassem, cada uma, pontos de vista distintos: o do nobre Albrecht, o do noivo Hilarion e o do público." No segundo ato, a principal mudança está no dueto principal. Em uma subversão do roteiro centenário, não é mais Giselle que dança com o príncipe Albrecht, mas Myrtha, a rainha das willis (noivas mortas antes do casamento).

Novo fôlego

Ainda que desalojado de seu palco principal - o Teatro Municipal -, o Balé da Cidade reforça os laços com os corpos estáveis da casa. Nas três noites, se apresentará ao lado da Orquestra Experimental de Repertório, que executará, ao vivo, a obra de Adolphe Adam, sob regência do maestro Jamil Maluf.

A união com as orquestras do Municipal, lembra Lara Pinheiro, diretora artística da companhia, não é novidade. Mas estava um pouco esquecida e deve se tornar constante.

Além da presença da orquestra, outros são os indicativos de que Giselle surge como uma grande produção do Balé da Cidade: os investimentos vultosos em cenografia e figurino e, sobretudo, o apelo mais popular. "A intenção é aprofundar o diálogo com outros públicos - que não só aqueles familiarizados com a dança contemporânea", lembra Lara. Nesta linha, o conjunto já criou em 2010 um espetáculo infantil, Terra Papagallis, e também abriu a Bienal de São Paulo. "Queremos passar a fazer parte da vida da cidade", ressalta a diretora.

BALÉ DA CIDADE

Auditório Ibirapuera. Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, 3629-1014. 6ª e sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 30.

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