Um Clapton que surge dentre os três Claptons do passado

Crítica Julio Maria

O Estado de S.Paulo

16 de março de 2013 | 02h12

JJJJ ÓTIMO

JJJJ ÓTIMO

Clapton? Qual Clapton? São pelo menos três homens que convivem ali dentro de um corpo de 1,77 metro de altura, 67 anos, dedos longos e que poucas vezes se permite sorrir. Qual Clapton aparece agora? O que fecha os olhos e tira lamentos de uma alma angustiada, suplicando pela ajuda de seu blues como se fosse ele a última salvação? O aluno sereno e equilibrado que estuda cada nota antes de reverenciar um mestre? Ou o criador de canções que já lhe renderam seis Grammys de um único disco, em 1992?

O Clapton de agora deve estar em algum lugar dentre os Claptons que ele mesmo recruta entre um álbum e outro. Está mais longe do bluesman de From The Cradle, de 1994, e mais perto do homem que há dois anos lançou um álbum de memórias afetivas com canções que ouvia quando criança. Mais longe dos ímpetos da adolescência que o faziam viajar ao espaço ao lado de Jack Bruce e de John Mayall e mais perto da leveza que destilou seus solos no açúcar em discos dos anos 70, como Another Ticket e Slowhand. Clapton está mais longe do guitarrista e mais perto do artista. O protagonismo de seu disco não está no instrumento, mas nas canções. Ser tantos o faz incompreendido por quem se depara com um quando o que vem é o outro.

O Clapton de Old Sock é o homem que aparece na capa do disco. Seguramente a pior capa de um disco seu, talvez a pior capa de um disco em muitos anos, ela ao menos revela seu espírito. É como se quisesse fazer canções para ouvir nas férias. Só não esqueçamos, são as férias de Clapton, algo que não deve ser pouco. Further On Down The Road, de Taj Mahal, é um reggae com o DNA de I Shot the Sheriff, mas sem tensão. Algo que vai acontecer de novo até o disco acabar. Sua Gotta Get Over dá sinais do especialista em erguer edifícios sobre riffs - algo que fez muitas vezes, como em Badge ou Layla. Mas suas pretensões aqui são menores, e ele não passa do quinto andar.

Agora, Clapton só gravou o que lhe faz bem. Seu disco não fecha um conceito, não amarra uma proposta. É como se tivesse esperado as filhas e a mulher dormirem para tocar na sala, apenas para si. Uma despreocupação que faz tudo ser leve e cria canções para ficarem por um dia todo em quem as ouve. Till Your Well Runs Dry, de Peter Tosh, é linda e triste. All Of Me, o standard, fica sorridente com a segunda voz e o baixo de Paul McCartney. Born To Lose é o country das slide guitars e da melancolia de Alberta, que ele consagrou no Acústico. Quase despercebido, JJ Cale faz vocal na balada Angel, algo que estaria em qualquer disco de Clapton dos anos 70. E Steve Winwood coloca teclados no terreno mais arenoso em que todos ali decidiram pisar. Still Got the Blues jamais ficaria melhor do que a original de Gary Moore, o espantoso guitarrista irlandês morto em 2011. A canção aparece limpa, de guitarras calmas e um órgão de igreja fazendo o tema do solo. Clapton está de férias. E, nas férias, ele prefere assim.

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