Um circo em dose tripla e a céu aberto

Uma estrutura metálica de 27 metros de diâmetro cercada de pano transparente com ilustrações gigantes. Ali dentro, uma arquibancada acolchoada e confortável para 450 pessoas. Nesse circo a céu aberto as companhias Parlapatões, La Mínima e Pia Fraus apresentam, amanhã e domingo, o espetáculo Pano de Roda, uma mostra de esquetes do repertório de cada uma delas.Quem já conhece o trabalho desses grupos sabe que a diversão é garantida. A censura é livre, o espetáculo pode ser visto por toda a família e a entrada é grátis, basta retirar a senha uma hora antes do início dos espetáculos, previstos para começar às 19 horas. ?Se ficar muita gente do lado de fora, a gente faz sessão extra em seguida?, promete Hugo Possolo, diretor e ator dos Parlapatões.A possibilidade disso acontecer é grande. Afinal, o espetáculo chega a São Paulo depois de ter passado por 18 cidades de oito Estados, entre eles Goiás, Mato Grosso, Rio Grande do Sul e Paraná, sempre com caloroso acolhimento do público. Nesses Estados, além de Pano de Roda, os grupos apresentaram outros três espetáculos, um de cada trupe, realizaram oficinas, rodas de conversa e aulas-espetáculos. O circuito foi patrocinado pela Petrobrás e tinha entre seus objetivos a revitalização do espaço público e a aproximação de forma direta, descomplicada e afetiva entre o teatro e seus espectadores.O que o público verá no Parque da Independência são números que deixarão bem claro as diferenças e afinidades de linguagem de cada uma das três companhias. O humor e a interação com o público fazem a principal marca dos Parlapatões. Em Pano de Boca, o futebol é o tema de um de seus números. Evidentemente, o público é chamado a participar, não exatamente para brilhar em campo, mas para fazer o ?papel? de trave, por exemplo. Um papel perigoso quando a bola está no pé de três palhaços. Como todos sabem o palhaço é aquele que faz coisas ridículas ou absurdas. Mas nesse comportamento subversivo acabam por revelar desejos, conscientes ou não, bem humanos. Assim, ao jogar futebol, cometem absurdos como ?amarrar? a bola no pé, para jamais perdê-la no drible de um jogador mais talentoso. No espetáculo ainda, também com os Parlapatões, um divertido número de tiro ao alvo ? um revólver gigante na mão de uma palhaço, outro palhaço de alvo.Bonecos, animação de objetos, espetáculos com poucas palavras e belas imagens marcam a linguagem da companhia Pia Fraus. Em Pano de Roda eles apresentam algumas cenas de Bichos do Brasil, o seu mais recente espetáculo. Entre elas, a bela coreografia de três galinhas d?Angola gigantes. Interessante notar que ?bichos adestrados? sempre integraram os circos mambembes, mas foram eliminados no chamado novo circo. ?A presença de bichos no picadeiro permanece no imaginário coletivo?, comenta Beto Andretta, da Pia Fraus. Por isso mesmo, mostram em Pano de Roda também uma bonita cena de Bichos do Brasil, na qual três macaquinhos (sempre bonecos criados por Beto Lima) dançam numa árvore ao som da bossa nova.Humor e grande domínio de técnicas circenses são marca registrada da companhia La Mínima, formada por Domingos Montagner e Fernando Sampaio. No Parque da Independência, os dois vão mostrar números clássicos de trapézio. Antes de mais nada, eles recriam o clima do antigo circo mambembe, entrando pela platéia, vendendo pipoca e pedindo ao público ajuda para armar o trapézio. Uma vez armado, mostram ali um divertido número, no qual satirizam o virtuosismo do balé clássico. Por trás do aparente escracho, dois virtuoses do trapézio.?A idéia de desenvolver um trabalho conjunto começou quando as três companhias integraram o movimento Arte contra a Barbárie?, lembra Possolo. ?Já nos conhecíamos, mas esses encontros propiciaram uma grande aproximação entre muitos grupos paulistanos.? Algum tempo depois, a Petrobrás abriu concorrência pública para projetos que combinassem parceria entre grupos e valorização do espaço urbano. ?O projeto tem uma preocupação bastante abrangente: valorização do espaço público; retomada da idéia do teatro como um momento de encontro de cidadãos; de troca de experiências ? com as atividades paralelas aos espetáculos ? e ainda de não privatização do espaço público, daí o pano transparente que permite a visão de quem está de fora.? Pelos cálculos das três companhias, o Projeto Pano de Roda atingiu um público de 18 mil espectadores nos espetáculos, sem contar os freqüentadores das atividades paralelas.

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