Um cineasta em busca da eternidade em um só dia

Depoimento: Luiz Carlos Merten

O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2012 | 03h08

Há algo de amarga ironia na morte trágica de Theo Angelopoulos, que foi vítima de um acidente de trânsito, atropelado por uma moto enquanto procurava locações para o próximo filme. Num de seus mais belos trabalhos, o mais?, o herói, Orestes, é um motociclista que leva duas crianças numa viagem em busca do pai. O filme é Paisagem na Neblina. Tive o privilégio de entrevistar Angelopoulos três ou quatro vezes, em Cannes, Berlim e Veneza, por filmes como A Eternidade e Um Dia, Um Olhar a Cada Dia, The Weeping Meadow e The Third Wing, os dois últimos integrando a trilogia de Helena.

Angelopoulos estava cheio de expectativa por um Urso de Ouro na Berlinale. Nunca saberei se era para completar sua coleção de prêmios maiores nos festivais mais importantes do mundo - ele ganhou o Leão e a Palma de Ouro - ou se era simplesmente a preocupação de um autor com dificuldades para obter financiamento e que acreditava que o prêmio lhe permitiria alavancar os projetos atravancados. Cahiers du Cinéma, a Bíblia do cinema de autor, nem o considerava como tal (auteur). Para a revista, era um cineasta pompier, um enganador.

Alexandre, Orestes, Ulisses, Helena (que ele chamava de 'Yelena'). Os mitos gregos percorrem a obra de Angelopoulos e nomeiam seus personagens. Ele surgiu num período conturbado da história da Grécia - o golpe militar de 1967 -, sofrendo na pele a repressão que se seguiu. Conheceu o exílio, e o interior, o mais dolorido de todos. Sua obra privilegia um espaço, a fronteira. Trata quase toda ela de imigrantes e de exílios, dos mitos formadores da identidade grega e, por extensão, da cultura ocidental, com tudo que lhe deve de filosofia e sistematização política. E se divide em duas fases, a primeira mais marxista/brechtiana; a segunda, mais densa e emocional.

As histórias quase sempre falam de solidão, de relações entre pais (e mães) e filhos. O aprendizado lhe era caro, o velho e o menino de A Eternidade e Um Dia. Os temas, ou o grande tema, podia ser sintetizado no título desse filme, em particular. Angelopoulos era um daqueles autores - a despeito de Cahiers... - que esculpiam o tempo. Buscava a eternidade num dia, ou num movimento de câmera. O plano-sequência virou o centro de sua mise-en-scène. The Third Wing, a segunda parte da trilogia de Helena, passa-se em parte na antiga URSS, onde o herói de esquerda buscou abrigo.

O filme tem essa cena prodigiosa - a multidão se reúne na praça para um comunicado. As pessoas vão chegando. Ouvem que Stalin, o condutor dos povos, morreu. Em choque, a multidão se dispersa, mas muita gente, como se tivesse perdido a bússola, anda em círculos, sem saber o que fazer. O plano é longo, lento, dura uma eternidade e o efeito emocional é fulminante. Diante do mestre, feito criança, queria saber. Como ele conseguiu aquele prodígio? Com método, Theo (Deus) respondeu. E não demorou muito, entre ensaio e filmagem. Uma das últimas vezes que o vi, a última?, foi em Cannes. Angelopoulos assistia de longe, da soleira de uma porta, como um anônimo, a montée des marches. Talvez ficcionalize um pouco, mas havia... O quê? Certa amargura, nostalgia em seu olhar? Foi um grande artista. Teve uma fase final difícil, mas sua obra, filmes como Os Atores Ambulantes, Alexandre o Grande, Viagem a Citera, O Apicultor, Paisagem, O Passo Suspenso da Cegonha, Um Olhar a Cada Dia e A Eternidade e Um Dia vão ficar.

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