Um cidadão acima de qualquer suspeita

Em Zeitoun, Dave Eggers detalha como um sírio-americano sobreviveu ao Katrina e à desastrosa ação do governo Bush

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2011 | 00h00

A indignação motivou o autor americano Dave Eggers a escrever Zeitoun, lançado agora pela Companhia das Letras. O livro relata em minúcias o calvário sofrido por Abdulrahman Zeitoun antes, durante e depois do desastre promovido pelo furacão Katrina, que arrasou a cidade de New Orleans em 2005. Da desastrosa ação emergencial aos feridos até a abusiva ofensiva policial, que confundiu Zeitoun com um terrorista, o relato traz um implacável retrato da crise administrativa do então presidente George W. Bush.

"Percebi que algumas engrenagens da Justiça americana estão totalmente quebradas", diz Eggers em entrevista exclusiva ao Estado, realizada por e-mail. Disposto a registrar os estragos provocados pelo furacão e as consequentes falhas governamentais no auxílio às vítimas, o autor optou por descrever o todo a partir do particular ao descobrir as complicações sofridas pela família Zeitoun. O livro saiu nos EUA em 2009.

Nascido na Síria, Adbulrahman logo se tornou americano e se estabeleceu em New Orleans.Em pouco tempo, conheceu e se casou com a americana Kathy, que havia se convertido ao islamismo. Juntos, começaram a administrar uma das empresas de reforma e pintura mais respeitadas da cidade, trabalho muito requisitado em uma região dos Estados Unidos marcada pela ação de furacões.

Quando as primeiras notícias do Katrina começaram a surgir, os Zeitoun (e, de resto, os habitantes de New Orleans) não se preocuparam, acreditando que os estragos não passariam do habitual - algumas telhas arrancadas e janelas quebradas. Em pouco tempo, porém, percebeu-se que sua magnitude provocaria grandes estragos.

Assim, dois dias antes da chegada do furacão à cidade, Kathy se despediu do marido e rumou com os quatro filhos para o interior da Louisiana, onde ficaria hospedada na casa de parentes. Cético, Zeitoun decidiu ficar. "Não vai acontecer nada. As pessoas estão fazendo drama à toa", disse à mulher.

Sua expectativa, no entanto, se revelou equivocada - na noite de 29 de agosto de 2005, o Katrina atingiu a cidade com ventos de mais de 200 km/h, acompanhados de chuva torrencial. Ondas gigantes derrubaram os diques de contenção do lago Pontchartrain e New Orleans ficou quase inteiramente alagada. No dia seguinte, aproximadamente 200 mil casas estavam embaixo d"água, que atingia 4 metros de altura. Cerca de mil pessoas morreram e outro milhão foi obrigado a deixar suas propriedades. Entre outros danos, o furacão interrompeu o sistema de abastecimento sanitário e de esgoto da cidade, o que obrigou muitos moradores a só retornarem em 2006.

Antes da tragédia se estabelecer, Zeitoun, antecipando, finalmente, a magnitude do problema, decidiu recuperar um velho bote de alumínio que havia comprado anos antes. A medida foi providencial: com isso, ele percorreu o bairro e conseguiu resgatar pessoas presas às suas casas. Com a demora do auxílio governamental, Zeitoun torna rotineira sua ronda voluntária e, ao longo de uma semana, sua pequena embarcação é a única forma de atender as vítimas da catástrofe.

Até que em um determinado dia, ao perceber que não conseguiria atender um casal de 70 anos, Zeitoun apelou para um grupo de soldados que, mesmo equipados de radiotransmissores, se negaram a buscar ajuda.

A situação tornou-se completamente absurda no dia 6 de setembro. Zeitoun estava na casa de um de seus inquilinos (ele e a mulher são proprietários de diversos imóveis em New Orleans) quando cinco homens e uma mulher, todos militares fortemente armados, invadiram o local e o prenderam. Sem nenhuma explicação, eles o mantiveram em um lugar tenebroso (comparado a Guantánamo por Eggers), sob a suspeita de ser terrorista.

Não convém avançar na história para não revelar surpresas. Eggers, que já havia relatado a história de um garoto que foge da guerra civil do Sudão em O Que É o Quê, conseguiu o apoio de Zeitoun, que detalhou sua história. A apuração durou três anos e incluiu viagens à Síria e à Espanha, onde a família tem parentes.

O resultado permitiu desvendar o misterioso jogo de interesses que transformou o desastre do Katrina em um dos episódios mais vergonhosos da administração de George W. Bush. E, a fim de conversar com um dos guardas que prenderam Zeitoun, o escritor se passou por estudante, como relata na seguinte entrevista.

Zeitoun é uma obra de não ficção mas o tom narrativo induz o leitor à revolta. Como foi seu processo de escrita?

Creio que a história da família fala por si mesma. Assim, evitei que minha voz, ou minha opinião, interferisse no fluir da narrativa. A melhor forma para apresentar um drama como esse é pela simplicidade. Espero que o leitor chegue às próprias conclusões, independentemente do que dizem ou sofrem meus personagens.

Você ponderou mudar o nome desses personagens?

Inicialmente, sugeri à família que trocasse seus verdadeiros nomes - o mundo está recheado de fanáticos e de pessoas que têm preconceito contra árabes e muçulmanos. Assim, pensei em protegê-los. Mas os Zeitoun insistiram em manter seu nome. E, quando o livro foi publicado, em vez de qualquer animosidade, eles receberam uma onda de apoio e carinho: pessoas de todos os cantos do planeta manifestaram sua solidariedade. Foi uma cena emocionante.

Depois de tanto transtornos, os Zeitoun ficaram temerosos com o projeto de seu livro?

Sim e não. Logicamente, estavam irritados com os sofrimentos a que foram submetidos, a ponto de entrarem com uma ação contra a prefeitura de New Orleans e também contra o governo federal - ambas, até agora, resultaram em nada. Mas o livro tornou-se um caminho para que contassem sua história e reclamassem sua identidade. Com isso, o receio de qualquer retaliação da cidade ou do governo se revelou equivocado. Na verdade, os Zeitoun receberam uma comenda municipal no ano passado.

Você enfrentou muitos obstáculos para escrever o livro? Algum documento que se tornou inacessível?

Foi muito difícil encontrar um dos policiais que prenderam Zeitoun. Levei um ano nessa busca e ainda contei com um investigador particular. Persisti porque era essencial ter seu ponto de vista. Também decidi visitar o Centro Correcional Elayn Hunt, mas não me permitiram fazer um tour como jornalista. Assim, eu me passei por um educador interessado em conseguir créditos para um estágio universitário. Pude passear pela penitenciária e notar como vivem os presos. Novamente, isso foi crucial pois descobri, por exemplo, que a prisão é limpa e funcional. O detalhe frustrante a partir das experiências de Zeitoun foi descobrir que algumas engrenagens da máquina da Justiça estão quebradas, ainda que outras funcionem.

O que mais o irritou: a indiferença da administração Bush com as vítimas do Katrina ou a paranoia despertada pela ameaça de terrorismo?

Ambas estavam intimamente ligadas. A obsessão da administração Bush pelo terrorismo limitou sua ação em New Orleans, além de incitar inúmeras decisões erradas. Quando a Fema (sigla em inglês para Agência Federal de Gestão de Emergências) foi incorporada pelo Departamento de Segurança Interna, por exemplo, aumentaram os erros e a ineficiência da responsabilidade sobre o Katrina. Quando um departamento inteiro foca apenas ataques terroristas, é possível que se esqueça como responder a um desastre natural.

A administração Obama pôs um ponto final em abusos como esse?

A Base de Guantánamo continua aberta e ainda há dezenas de homens presos que nem sabem por que foram processados. Em nossa coleção de livros Voz de Testemunhas, temos outro volume a ser lançado nos próximos meses chamado Jogos Patrióticos: Narrativas de Injustiças Pós 11 de Setembro, que inclui o depoimento de diversos americanos de origem árabe e muçulmana. Infelizmente, a maioria dos abusos sofridos por esses cidadãos aconteceu durante a administração Obama.

O jornalismo narrativo americano tem confiado muito na ficção e se inspirado no arco narrativo clássico. De que forma você acredita que essa narrativa literária é modificada quando chega ao jornalismo?

(A escritora e jornalista) Joan Didion disse, certa vez: "Contamos nossas histórias a fim de sobreviver". Concordo plenamente. A tarefa de qualquer escritor é a de explicar as coisas de uma maneira facilmente compreendida e de uma forma em que possamos nos sentir iluminados. E um dos melhores caminhos para se entender um fato complexo, como o Katrina, é por meio dos olhos de uma pessoa ou de uma família. Não creio que eu vá escrever bem uma história abrangente de um momento histórico, mas acredito que, dentro de um escopo limitado, concentrado em indivíduos cujas trajetórias iluminam a narrativa, é possível chegar ao essencial, que é desbloquear o potencial humano para se compreender, criar empatia e incentivar a ação.

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