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Um ciclo para deixar saudades

O Belas Artes promove uma notável retrospectiva de clássicos até o dia 27, quando encerra suas atividades

Luiz Zanin Orichio, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2011 | 00h00

Antes de fechar as portas, o Cine Belas Artes promove uma retrospectiva de arrasar, só para mostrar a falta que fará à cidade. Se nada acontecer de novo, o tradicional cinema da Consolação encerra as atividades dia 27, mas, até lá, a proposta é enfileirar clássicos e filmes notáveis nessa mostra, que começa hoje e termina junto com o cinema. Para se ter ideia do que se poderá ver, basta mencionar as duas atrações do primeiro dia: Meu Tio (1958), de Jacques Tati, e O Encouraçado Potemkin (1925), de Sergei Eisenstein.

Meu Tio é talvez, junto com As Férias de M. Hulot, a criação mais famosa de Tati, cômico francês que inaugurou um humor gráfico, no qual a expressão gestual vale muito mais do que a palavra, virtualmente inexistente em seus filmes. Por curiosidade, a apresentação de Meu Tio coincide com a estreia do magnífico desenho O Mágico, de Sylvain Chomet, baseado em roteiro deixado por Tati. Em Meu Tio, o próprio Tati interpreta o tipo exótico que mora num bairro popular e vem visitar seu sobrinho, habitante de uma casa ultramoderna. Curiosa a maneira como Tati brinca (e ironiza) o fascínio pela tecnologia já naquela época, em que o mundo começava a despertar para o encanto da automação, a ponto de ser engolido por ela. Profético.

A outra atração da retrospectiva do Belas Artes em seu primeiro dia é aquele que já foi tido como o clássico dos clássicos, o filme que inaugurou toda uma vertente do cinema e inovou a arte nos anos 1920. Potemkin, nos tempos da ditadura militar, chegou a ser proibido no Brasil e era visto em sessões clandestinas, como se pudesse induzir as pessoas à revolta contra a opressão.

E, de fato, sua história é sobre isso mesmo. Baseado em histórias reais, mostra como os marinheiros russos se revoltaram contra a comida estragada servida a bordo. Contém uma cena, o massacre nas escadarias de Odessa, que o historiador Eric Hobsbawm descreveu como "os oito minutos mais influentes da história do cinema".

Amanhã. Há muito mais, a seguir. Mais dois clássicos compõem o programa de amanhã - Morte em Veneza (1971), de Luchino Visconti, e A Regra do Jogo (1939), de Jean Renoir. Morte em Veneza, baseado em Thomas Mann, é um dos mais suntuosos filmes do mestre italiano. Sentindo-se doente e envelhecido, o compositor von Aschenbach (Dirk Bogarde) procura rejuvenescer em viagem à mítica Veneza. Vive-se a belle époque na Europa cosmopolita, antes da Primeira Guerra Mundial. Em Veneza, Aschenbach encontra um anjo de beleza (Tadzio), e também o tifo.

O filme é de beleza extraordinária e pede uma tela grande para se expressar. Algumas cenas são de antologia, como a da pintura escorrendo pelo rosto do velho moribundo, sentado em uma cadeira na praia do Lido. O filme celebrizou o Hotel des Bains, onde foi rodado, hoje fechado para reforma.

Além do drama pessoal de Aschenbach, Morte em Veneza prenunciava o declínio da civilização europeia. Por isso, dialoga tão bem com A Regra do Jogo, filme ambientado à véspera da segunda catástrofe da Europa. Numa casa de campo burguesa, os patrões se entregam a jogos e caçadas e entretêm ambíguos relacionamentos com seus empregados. Renoir, com fineza de observação, mostra como o relacionamento entre classes continuava tão rígido como sempre na democrática Europa dos anos 1930. Tudo aparência, porque, sob a capa da liberalidade, subjaz a mais rígida hierarquia. Poucos filmes foram tão proféticos e infuentes como este.

História. Há muito mais para os outros dias, como Sargento Getúlio, de Hermano Penna, Noites de Cabíria, de Federico Fellini, Cria Cuervos, de Carlos Saura, A Lei do Desejo, de Pedro Almodóvar, Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman, e Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola, entre outros. Vale a pena seguir. Para se despedir do velho cinema e lembrar de um tempo em que os filmes faziam parte da nossa história de maneira mais intensa e duradoura.

RETROSPECTIVA BELAS ARTES

Hoje, às 18h30, Meu Tio (1958), de Jacques Tati; às 21h, O Encouraçado Potemkin (1925), de Serguei Eisenstein. Amanhã, às 18h30, Morte em Veneza (1971), de Luchino

Visconti; às 21h, A Regra do Jogo (1939), de Jean Renoir. Domingo, às 18h30, Paixão

Selvagem (1976), de Serge Gainsbourg; às 21h, Amores Expressos (1994), de Wong Kar-wai.

Cine Belas Artes. Rua da Consolação, 2.423, tel. 3258-4092. R$ 4. Até 27/1.

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