Um Chekhov movido a paixões

Em Tio Vânia, Galpão recusa visão majoritária sobre o autor e foca nos desejos

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2011 | 03h06

"Onde está a ação?", bradavam os jornais de São Petersburgo, logo após a estreia de A Gaivota, em 1896. Mais de um século se passou. Não se alterou, porém, o olhar que se lança sobre a obra de Anton Chekhov. Ao menos, não nesse quesito. O escritor russo continua a carregar a pecha de melancólico. Seus diálogos seguem parecendo triviais. Seu enredo ainda soa como uma sucessão de não acontecimentos.

Em Tio Vânia - Aos Que Vierem Depois de Nós, o tradicional grupo Galpão coloca-se na contracorrente dessa visão majoritária. Na montagem, que estreia hoje no Sesc Vila Mariana, a companhia mineira ressalta os impulsos vitais -ímpetos de transformação, de liberdade, de desejo, de sexo - que atravessam a criação. "É um Chekhov no qual os adjetivos geralmente utilizados - lacônico, pessimista - não nos interessam", aponta Yara de Novaes, encenadora convidada a dirigir o grupo. "Existe uma pulsão libidinosa muito forte. Os movimentos podem até não resultar em nada. Mas há movimento o tempo inteiro. Não há ninguém parado, deprimido."

Escrita em 1897, Tio Vânia examina as ilusões perdidas de um homem de meia-idade. A chegada do professor Serebriakóv, viúvo de sua irmã, revela a esse homem o vazio de sua existência. O intelectual que ele admirava não é mais do que um esnobe. A situação só se agrava com a presença de Helena, a nova e atraente mulher de Serebriakóv. Capaz de inebriar Vânia e outro importante personagem da trama, o Dr. Astróv, médico rural que parece ocupar o lugar de um alter ego do dramaturgo.

A rigor, é disso que se trata: de frustração. Mas o que importa parece estar nos intervalos, no espaço em branco entre essas camadas e camadas de desengano. "Esses personagens tem uma vida interna muito fervorosa, eles querem muito viver. Por dentro, pululam de vontades", observa o ator Eduardo Moreira.

É dessa tensão - entre esse incêndio interior dos personagens e o que se apresenta na exterioridade da cena - que se alimenta a peça. "Nosso maior desafio foi encontrar justamente esse equilíbrio", diz Moreira sobre a encenação, que estreou no Festival de Curitiba, em março deste ano, e já cumpriu temporadas no Rio e em Belo Horizonte.

Outra marca da versão do Galpão está no seu sublinhado traço contemporâneo. Mesmo situado na Rússia pré-revolucionária, nos limites de uma propriedade rural, o enredo dá notícia de embates e conflitos cada vez mais urgentes. Desde o clamor pela preservação das florestas (ideia impensável para os progressistas do século 19) até o vácuo, cada vez mais profundo, no qual os indivíduos mergulham suas existências.

"Escolhemos essa peça porque achávamos que ela poderia ser um discurso nosso. De verdade", comenta a diretora. "O que nos move é a vontade de fazer um Chekhov que soe como algo próximo, particular." É fácil entender a carga de pessoalidade que impregna a montagem se observado o momento que vive hoje o Galpão. Às vésperas de completar 30 anos, a trupe também põe sob escrutínio os caminhos que tomou e ensaia os passos por uma nova trilha.

Se olharmos em retrospecto a trajetória do grupo, fica evidente a predileção por interpretações mais proclamadas. Um envolvimento com formas populares, circenses. Tudo bastante distante da fluidez íntima que encontramos nas criações do dramaturgo russo. O encontro entre esses dois mundos distantes se concretiza agora. Mas já estava insinuado desde 2008, quando os atores mineiros participaram de Moscou, filme que Eduardo Coutinho cunhou a partir de As Três Irmãs, outro texto de Chekhov.

"Dessa síntese de elementos, aparentemente opositores, resulta um terceiro componente", acredita Yara. "Através dos olhos do Galpão, vislumbramos um Chekhov menos normatizado. E, através do Chekhov, também temos a oportunidade de encontrar um Galpão um pouco diferente."

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