Um certo senhor Eastwood

Como John Wayne, Clint Eastwood é um ator carismático, um pouco subestimado, que não nasceu para representar Rei Lear. Não está na mesma categoria de Nicholson, Hoffman, Hackman e Freeman, muito menos na de Day-Lewis, mas é muito superior aos seus contemporâneos, como Harrison Ford. E ninguém mais teve uma carreira como a sua: Três Homens em Conflito, Perseguidor Implacável, Bird, Os Imperdoáveis, Na Linha de Fogo, As Pontes de Madison, Menina de Ouro, Gran Torino, Sobre Meninos e Lobos...

Joe Queenan, The Guardian, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2010 | 00h00

Coppola, Scorsese e Spielberg, verdadeiras lendas, fizeram filmes melhores, mas nenhum deles foi ator. Nicholson dominou a psique americana desde Sem Destino, em 1969, mas suas tentativas na direção não foram tão bem-sucedidas e ele não é adorado pela classe média americana como Eastwood.

Redford, De Niro, Marlon Brando e Barbra Streisand, entre outros, também alcançaram certo sucesso como diretores, mas não na escala de Eastwood, que dirigiu 30 filmes, e é considerado um diretor sério. Sim, houve Orson Welles, esplêndido ator e diretor. Mas sua carreira acabou cedo. Sua queda em desgraça foi o acontecimento mais triste da história do cinema americano.

A comparação mais óbvia é com Mel Gibson, sólido diretor bem-sucedido que é também ótimo ator. Mas não é tão produtivo quanto Eastwood, nem tão variado. E Gibson é australiano, não americano e jamais será "adorado". No fim, nenhum outro ator-diretor - nem Beatty, Costner ou Woody Allen - teve uma carreira como a de Eastwood. Ele é único.

Sergio Leone. A formação de Eastwood, nascido em 1930, foi fortemente influenciada pela década do seu nascimento e pelos anos 60. Os melhores filmes dos anos 30 e 40 são unidos por uma clara visão moral: a boa vontade predomina sobre o mal, mas levará algum tempo para que isso aconteça. Nos "spaghetti western" que o tornaram famoso, o triunfo do bem sobre o mal leva ainda mais tempo. Trabalhar com o diretor Sergio Leone foi uma grande influência estilística sobre Eastwood, que nunca teve pressa de chegar lá.

Os "spaghetti western" avançaram a um passo lânguido, assim como os de Eastwood. Os primeiros, como O Estranho Sem Nome, começam com uma explosão e depois baixam o tom, e então chegam ao grande final, como Os Imperdoáveis. Em Por Um Punhado de Dólares, o filme que o tornou famoso, o estrangeiro alto e magro, enigmático, que se dispõe a ajudar os pobres mexicanos oprimidos. Em Gran Torino, um enigmático estrangeiro alto e magro chega para ajudar os pobres imigrantes do Sudeste Asiático. Algumas coisas mudam. Outras não.

Filho da Grande Depressão, o ator compreendeu que o único crime imperdoável era parar de trabalhar. Fez todo tipo de filmes e rapidamente. Não gastou muito com astros ou efeitos especiais. Se um filme não tinha sucesso, tentava algo diferente. Então, se sua carreira de diretor estacionava, contratava a si mesmo como ator. Ao contrário de Beatty e de Welles, não parece ter tido medo do fracasso, nem parece se importar com críticas.

William Goldman, provavelmente o mais famoso roteirista do mundo, trabalhou com Eastwood em Poder Absoluto. Ele acha que Eastwood, como Paul Newman, se beneficiaram pelo fato de adiarem sua gratificação. "O motivo pelo qual eles eram tão incríveis é que não se realizaram muito cedo na vida." Também destacou a qualidade do trabalho de Eastwood numa idade tão avançada. "Os diretores perdem esta capacidade aos 60 porque estão ricos demais ou não conseguem mais trabalho. E é um trabalho cansativo. É por isso que Gran Torino me impressiona. Ele está com quase 80 e ainda pode fazer um filme como este. Sua carreira é fantástica."

Clint Eastwood entra na categoria dos artistas - como Sean Connery e Judy Garland - que fazem algo maravilhoso no início da carreira, e por isso o público tem com eles uma dívida eterna de gratidão. O público nunca esquece Por Um Punhado de Dólares, porque insuflou vida em um gênero que estava morrendo e porque Eastwood - de poncho e cigarrilha - fez um tipo incrivelmente cool. E, de algum modo, Eastwood conseguiu enterrar o estigma direitista de Dirty Harry que o perseguiu na década de 70.

Na época em que Hollywood se preocupavam com a possibilidade de seu país se tornar um Estado policial - no governo de Richard Nixon -, Eastwood fazia filmes bajulando um policial corrupto. Um exemplo do politicamente incorreto. Mas ele abrandou e cresceu como artista com o passar do tempo: O Estranho Sem Nome (1973) começa com três assassinatos e um estupro; As Pontes de Madison (1995) não tem nada disso.

Em defesa de Eastwood, os filmes do tipo Perseguidor Implacável, que alguns consideram questionáveis, eram pouco mais que A Marca da Forca transposto para os tempos modernos. Homens desagradáveis infernizam a vida de cidadãos comuns, e a polícia não consegue controlá-los. No meio da confusão chega um misterioso psicopata que fica do lado dos anjos e briga por eles. Ninguém se importou quando Eastwood fez isso em Por Um Punhado de Dólares, O Estranho Sem Nome, assim como ninguém se importou quando ele voltou ao tema em Os Imperdoáveis. Somente quando o anjo vingador aparece na cidade, os defensores das liberdades civis se revoltam.

Heróis. Os westerns são ambientados em uma era em relação à qual os americanos se sentem tranquilos; todos têm uma arma, enquanto os pistoleiros fazem a própria lei. Nos filmes sobre policiais corruptos, não. Se alguém faz a própria lei no fim do século 19, é herói. Se faz isso no fim do século 20, é fascista.

Como Denzel Washington, um ator muito melhor, o diretor mostra para o mundo uma imagem dos Estados Unidos que deixa os americanos confortáveis.

Num aspecto, Eastwood se parece com os grandes diretores que o antecederam, como Hitchcock e Huston: nunca parou de bater o cartão. Ao contrário de autores sensíveis, que precisam afastar-se por alguns anos para contemplar o próximo projeto, ele não parou de fazer filmes desde sua estreia, em 1971.

Trabalhando com os mesmos colaboradores, fez obras intelectualizadas como Bird e Coração de Caçador, de terror como Perversa Paixão, comédias extravagantes como Bronco Billy e Cowboys do Espaço, sentimentais como Invictus, e épicos como A Conquista da Honra.

Com base em grandes romances, fez ótimos filmes (Sobre Meninos e Lobos), mas o que é mais impressionante é que, de um livro horrível, ele fez um belo trabalho (As Pontes de Madison). Se por algum tempo parecia que sua inspiração estava esgotada, ele sempre achava um modo de se recuperar.

Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal, Crime Verdadeiro e Dívida de Sangue foram lançados numa rápida sucessão. Eram ruins. Depois vieram Sobre Meninos e Lobos e Menina de Ouro, bem melhores. Ele estrelou ou dirigiu poucos filmes realmente ruins. É que ele evitava as comédias: filmes policiais podem ser até ruins, mas no caso das comédias, o céu é o limite. Seus piores filmes são os que ele fez com Sondra Locke. Entretanto, o único absolutamente ridículo (sem orangotango) é Os Aventureiros do Ouro, o horrível musical de 1969, que até tem uma virtude: é completamente maluco.

Os filmes de Clint Eastwood não são densos em termos de conteúdo filosófico. Ele gosta de fazer filmes em que o indivíduo anônimo se revolta e o povo precisa de um defensor. Ele próprio conservador, consegue, de algum modo, fazer uma síntese do ponto de vista da direita e da esquerda em seus filmes. No mundo de Eastwood, há sempre alguma coisa para todos, desde que não façam objeção a um pouco de violência.

Ele também nunca hesitou em se divertir e rir com seus personagens. Gran Torino, no qual Eastwood literalmente grunhe, pisca e diz palavrões e fica apontando armas o tempo inteiro, é muito engraçado. Assim como Cowboys do Espaço.

Considerado um tesouro nacional, Eastwood estreou no cinema em 1955, no papel de um técnico de laboratório em A Revanche do Monstro. Naquele ano, Marlon Brando e Frank Sinatra fizeram Eles e Elas.

A sua é uma longa carreira. Ele sobreviveu a todos os seus notáveis contemporâneos. Diretores e astros vêm e vão; Eastwood permanece. Continua a trabalhar, agora está dirigindo Hereafter, seu 31.º filme. "Um homem deve conhecer suas limitações" é a frase famosa que ele diz no fim de Magnum 44. Mas parece que Clint Eastwood não tem limitações. TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

Cinco personagens

JOE

1964

"Meu erro. Quatro caixões." (Por Um Punhado de Dólares)

BLONDIE

1966

"Neste mundo, há apenas dois tipos de pessoas, meu amigo: as que têm uma arma carregada, e as que cavam. Você cava." (Três Homens em Conflito)

JOSEY WALES

1976

"Morrer não é vida, camarada." (Josey Wales - O Fora da Lei)

HARRY CALLAHAN

1983

"Vá em frente, me faça ganhar o dia." (Impacto Fulminante)

PREACHER

1985

"Nada se compara a um bom pedaço de nogueira." (O Cavaleiro Solitário)

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