Um centauro para salvar a escritura

ANTONIO GONÇALVES FILHO

O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2012 | 03h09

A dor da perda de seu filho mais novo Uri, morto há seis anos em combate no sul do Líbano, tornou a tarefa de escrever sobre a tragédia um ato insuportável, apenas superado porque a poesia veio em socorro do escritor israelense David Grossman, um dos mais conceituados autores de seu país ao lado de Amós Oz. Grossman, que escreveu um livro notável sobre a amarga experiência que divide com outros pais em Israel, Fora do Tempo (leia crítica na edição online), teve de recorrer a uma figura mitológica para realizar esse trabalho de luto, um insólito centauro - metade homem, metade escrivaninha. Ele usa esse híbrido como metáfora do ser que perde a natureza humana, se torna afásico e depois recupera o poder da fala para traduzir em palavras a dor que sente, seguindo adiante em seu mundo de ausências.

Como resultado, Fora do Tempo escapa a qualquer classificação de gênero. Não é romance, ensaio político, mas pode ser lido como prosa poética que reconta o drama vivido por Grossman e sua mulher sem que em nenhum momento seja evocado o nome de Uri. Sargento do Exército israelense, seu tanque foi atingido por um míssil do Hezbollah quando patrulhava a fronteira libanesa, em agosto de 2006. Uri tinha apenas 20 anos. Seu pai nunca mais sentaria com ele para ver Os Simpsons ou ouvir junto com o filho os discos de Johnny Cash. Restou a Grossman erguer um monumento em sua memória. E ele é Fora do Tempo. Sobre o livro, o escritor falou com o Sabático, por telefone, de Israel. Vale mencionar que, ao ser lançado em seu país, em junho do ano passado, Grossman preferiu não dar entrevistas, talvez por temer que a obra intimista pudesse, de alguma forma, ser usada como arma política.

Defensor de uma solução pacífica para o conflito árabe-israelense e da coexistência entre dois Estados, Grossman não recua diante de perguntas de caráter político. Não mudou de opinião sobre a ocupação dos territórios palestinos (ele é contra), embora acredite que nem todos os árabes sejam homens de boa vontade - ele se refere a paramilitares fundamentalistas, entre os quais o grupo libanês xiita Hezbollah, que recebe ajuda financeira da Síria e do Irã. Nem mesmo desse último país o escritor faz qualquer comentário agressivo. "Ahmadinejad é uma coisa, os iranianos são outra", diz. "Não se pode confundir um fanático com um povo que não é nosso inimigo."

O que Grossman pensa sobre Exército, pátria e o espírito belicista que impede o Oriente Médio de ser uma região pacífica está, de certa forma, expresso na parábola que o escritor construiu em Fora do Tempo. Nela, uma mulher de meia-idade, Ora, quase enlouquece quando o filho Ofer, que acaba de dar baixa no Exército, decide voluntariamente voltar à frente de batalha para lutar contra os inimigos de Israel. A mãe, transtornada, vaga pelo território israelense. Só assim não receberá na porta de casa a notícia da morte de seu filho. A tática de Ora parece fruto de certo pragmatismo feminino, mas é uma saída honrosa, comparável à das mães nas tragédias gregas ou nos épicos russos. Paul Auster, aliás, escreveu que Ora lembra as personagens femininas de Tolstoi. É na figura do pai que o huis clos mental bloqueia qualquer saída para esquecer a tragédia. Só a poesia o salvará da loucura.

"Ela o liberta do silêncio, desse estado de estupor", diz Grossman, lembrando que a imobilidade dos protagonistas, que os transforma em seres incomunicáveis, também os livra do desejo agressivo da vingança, esse sentimento primitivo. "Quando meu filho morreu, recebi milhares de telegramas e todos, invariavelmente, vinham com uma mensagem que começava com 'não há palavras para exprimir...', o que me fez pensar: se esses mestres da literatura não têm uma palavra para nos livrar da tragédia, o que resta fazer além de enfiar a cabeça num buraco?"

Assim, Grossman criou uma trama básica - a incomunicabilidade entre o casal, com uma saída apontada pelo gesto ativo da mulher. "É ela quem vai lutar contra o governo, o Exército e todas essas instituições criadas pelo homem contra o homem." O homem, fiel a elas, conclui que errou. É à memória do filho e de todos os que morreram em nome dessas instituições que ele tem de ser fiel. "Não poderia escrever mais um livro sobre a ocupação dos territórios palestinos, o que venho fazendo desde 1983, pois sentia que era meu dever falar sobre a violência da guerra, dessa animosidade que não tem fim entre árabes e israelenses." Por ser o luto uma experiência solitária, restou a Grossman abandonar os antigos gêneros literários que conhecia e criar um novo, em que a palavra ressurge com sua potência quase bíblica num texto que evoca o drama medieval, prosa em verso que incendeia a memória paralisante e faz do centauro-escrivaninha um ser que readquire sua força por meio do verbo.

Quando menciona que o cineasta italiano Pier Paolo Pasolini usou a mesma metáfora do centauro (no filme Medeia) para mostrar que perdemos o melhor de nós quando deixamos de ser esse ser híbrido que é ao mesmo tempo razão e emoção, Grossman observa que o uso alegórico do ser híbrido, no seu caso, teve mais a ver com a reconciliação com sua parte racional de escritor, exilado de seu mundo verbal quando a morte rondou sua casa. "Queria que o leitor se perguntasse o que significa ser humano numa situação dessas, preocupando-me com a possibilidade de meu filho ser usado como outro símbolo do conflito árabe-israelense."

Grossman parece cansado de viver entre pessoas que, nascidas na guerra, programadas para a guerra e falando a linguagem da guerra vivem a paranoia de serem permanentemente perseguidas pelo inimigo, mostrando-se belicosas e agressivas. "As armas não podem significar nossa única defesa no futuro, mas o diálogo com nossos vizinhos pode", diz, desejando aos palestinos "que vivam e criem seus filhos com dignidade". A força bruta não vai proteger os israelenses. "Somos frágeis para sobreviver numa região turbulenta como essa e não acredito que o único motivo de tanta agressão seja a ocupação dos territórios palestinos."

Mesmo usando a figura de um homem que tenta se comunicar com o filho morto, Grossman afirma não ser um místico. "Não acredito em vida após a morte, mas creio que os mortos vivem dentro de nós e que podemos conversar com eles. É essa a vida que temos, entre a escuridão da qual viemos para a escuridão para a qual iremos."

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