Tasso Marcelo/ Estadão
Tasso Marcelo/ Estadão

Um Caymmi pouco conhecido

Nana, Dori e Danilo fazem show com lados B do pai, repertório de CD que antecipa celebração de centenário

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2013 | 02h19

Para tocar e cantar O Que É Que a Baiana Tem?, Samba da Minha Terra, Maracangalha, Marina e outras pedras fundamentais do cancioneiro de Dorival Caymmi, Nana, Dori e Danilo não carecem de ensaio. Já para os shows que farão no Sesc Vila Mariana de hoje a domingo, calcados no CD-tributo ao centenário do pai (em abril de 2014), foi preciso se preparar.

O disco (Som Livre) tem 13 faixas, sendo três pot-pourris. São músicas menos conhecidas do público, de domínio mais familiar. Estavam perdidas na memória afetiva dos três. Era preciso resgatá-las e ensiná-las à banda. "Cantava-se muito lá em casa quando éramos jovens e papai recebia músicos, pintores, escritores, gente do rádio, intelectuais", conta Dori, autor do projeto e dos arranjos.

A seleção privilegiou o Caymmi praieiro, o preferido de Dori, que partiu do livro Cancioneiro da Bahia, de 1947, publicado pelo pai com histórias e tipos de sua terra e prefaciado pelo amigo Jorge Amado. Iemanjá está em Sereia, Rainha do Mar, Caminhos do Mar, A Mãe D'Água e a Menina. A nega (Balaio Grande), a fazenda (História pro Sinhozinho, Cantiga de Cego), a culinária (Acaçá), a praia (Itapoã), os afetos de Caymmi aparecem em canções pouco gravadas.

As mais conhecidas foram ouvidas em programas de TV: História pro Sinhozinho era da trilha do Sítio do Pica-pau Amarelo; Modinha para Teresa Batista e Vamos Falar de Teresa foram feitas para a versão da Globo para o romance de Jorge Amado; Retirantes ("Vida de negro é difícil...") abria Escrava Isaura.

"Essas músicas estavam no nosso ambiente familiar o tempo inteiro, mas duas eu nem conhecia!", diz Danilo. "Seria mesmice gravar de novo as mais conhecidas; isso fizemos nos 90 anos (o CD duplo 'Caymmi 90 Anos' ganhou um Grammy)."

Em 2008, quando Caymmi morreu, os filhos tomaram para si a missão de perenizar a herança musical - como se a obra não fizesse isso por si só. Agora, as comemorações do centenário e o CD também têm esse propósito.

"Quero até o fim do ano fazer o DVD. Que as novas gerações gostem de Caymmi, que vejam a Bahia com os olhos dele", diz Nana, para quem a morte do pai e da mãe ainda é cicatriz recente. "Essas músicas lembram barbaramente a nossa casa. É difícil lidar com o inconformismo, brigar com Deus. Nos 90 anos, comemoramos muito, ele ficou emocionado. Dessa vez, a presença será na alma."

Eles não sabem se viajarão com o show - que também terá as canções consagradas -, nem o que mais virá a reboque da efeméride de 2014. É preciso conciliar a agenda de Nana pelo Brasil e o CD autoral novo que Danilo quer fazer, e ainda trazer Dori de Los Angeles, onde ele mora.

Este ano, o primeiro lançamento foi o do livro O Que É Que a Baiana Tem? - Dorival Caymmi na Era do Rádio (Civilização Brasileira), de Stella Caymmi, filha de Nana. Ela narra a vida difícil do jovem baiano recém-chegado ao Rio, mesmo depois de gravado por Carmen Miranda.

NANA, DORI E DANILO CAYMMI

Sesc Vila Mariana. R. Pelotas, 141.

5ª a sáb., 21 h; dom., 18 h.

R$ 40.

OS CAYMMIS

Nana, Dori e Danilo - Caymmi

Som Livre, R$ 24,90

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