Um caso de amor aos livros

Um caso de amor aos livros

Anna Duckworth, a mais antiga bibliotecária municipal em atividade, fala de sua experiência no Brasil e exterior

Rodrigo Levino, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2010 | 00h00

Anna Duckworth, de 61 anos, bibliotecária da rede municipal desde 1978 - a mais antiga em atividade - percebeu a mudança de foco nas bibliotecas brasileiras mais fortemente no início dos anos 2000. Durante o mestrado no Simmon"s College, em Boston, na década dos anos 90, e como estagiária de duas bibliotecas norte-americanas, ela já havia testemunhado a guinada fora do País.

"Acho que é a única maneira de despertar o interesse de novos e potenciais leitores. Foi-se o tempo em que um estudante ia a uma biblioteca fazer pesquisas. Isso eles podem fazer pela internet.Contar histórias, envolver os potenciais leitores com coisas relacionadas ao livro pode ser a nossa tábua de salvação", diz Anna, que hoje se dedica a pequenos eventos na Biblioteca Belmonte, em Santo Amaro, zona sul da capital, e diz não acreditar que a tecnologia dos leitores eletrônicos possa suplantar o uso do livro físico a curto ou médio prazo. "Talvez em 50, 60 anos. Até pelo acesso que é restrito. Essa onda vai demorar a se espalhar até a borda."

Lá fora, enquanto a discussão livros x tecnologia incendeia debates entre leitores e editores, as bibliotecas seguem a marcha da mudança. Na Inglaterra, o governo investiu no último ano cerca de 193 milhões de libras, aproximadamente R$ 900 milhões, na reforma e construção de novas bibliotecas nas cidades de Birmingham, Cardiff, Newcastle e Swindon. Todas dentro do padrão das superbibliotecas, equipadas com cafés (filiais da rede Starbucks), teatros, cinemas, auditórios e centros de informática.

Apesar dessa tendência, ainda é possível encontrar estudantes nas bibliotecas paulistanas, a maioria dedicada ao estudo em grupo, quase nenhum a pesquisa nos moldes antigos de consulta a enciclopédias e almanaques. "Durante dois anos estudamos todos os fim de semana aqui (Biblioteca do Centro Cultural São Paulo), mas estamos de mudança para a do Carandiru", contou Jaqueline Brasileiro, de 24 anos, que com mais quatro colegas de faculdade optou pela mudança ao saber que a Biblioteca São Paulo é mais iluminada, espaçosa e dispõe de um café e acesso à internet em maior quantidade de computadores.

Por prazer. "As bibliotecas sobreviverão. Para vários fins, além de apreciar literatura. Estudar, encontrar pessoas, ter acesso à informação, do modo como cada uma delas achar conveniente aos seus frequentadores", diz Anna Duckworth, certa de ser essa a melhor - única? - arma contra o desinteresse e a chegada de recursos tecnológicos para a leitura. Antonio Claudio, em Parada de Taipas, dá de ombros e confessa frequentar a biblioteca do bairro por prazer, "mesmo que eu seja o único na sala de leitura nos próximos anos".

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