Um casal que consegue sobreviver

Em Intimidade Indecente, o mais recente texto Leilah Assumpção, a vida realmente começa aos 50 anos. Essa é a faixa etária dos personagens - Mariano e Roberta - no ponto de partida do texto, estruturado em quatro grandes cenas, que flagram um casal em diferentes momentos de sua relação afetiva, aos 50, 60, 70 e 80 anos de idade. "Quando a peça começa, eles já se realizaram profissionalmente e estão naquela idade que corresponde ao início do inverno", comenta Irene Ravache, intérprete de Roberta e co-produtora do espetáculo.Certamente, a escolha dessa faixa etária não foi uma mera coincidência. Principalmente quando se leva em conta tratar-se de uma autora que há 30 anos vem acompanhando - por meio de suas peças - a evolução do papel da mulher na sociedade. Roberta está muito distante do perfil da sexualmente reprimida solteirona Mariazinha de Fala Baixo Senão eu Grito e também da Amélia, de Roda Cor de Roda, uma esposa traída decidida a agir de forma semelhante ao marido "galinha" - suas primeiras peças criadas nas décadas de 60 e 70.Aos 50 anos, não há mais dúvida das conquistas da personagem no campo profissional. Sua independência financeira não está mais em risco. Mas são ainda muitas as arestas na relação afetiva. "É o texto mais completo da Leilah, o que mergulha mais fundo no que é essencial ao ser humano - a forma como ele se relaciona com o afeto", afirma Irene.A primeira cena enfoca a típica crise de casais de meia-idade, cuja relação apoia-se muito mais na cumplicidade e nas vivências comuns do que na atração física. Com os filhos já independentes e o dia a dia marcado pela rotina, Mariano sente-se atraído por uma mulher mais jovem.A partir daí, Leilah aborda alguns comportamentos muito característicos do mundo contemporâneo. Entre eles, a falta de generosidade para conviver com as diferenças, aliada a um narcisismo que leva à procura do "espelho" nas relações afetivas. São "tribos" formadas por gente cujas relações são marcadas pela busca de um outro em tudo semelhante a si. E, pelo menos em Intimidade Indecente, esse não é um comportamente restrito aos jovens, e que resvala em Roberta aos 60 anos."O fascinante nesses personagens é que eles são curiosos e estão em constante investigação de si mesmos", comenta Irene. "E em movimento", completa Leilah. "Exatamente. E esse movimento é importante. Conheço pessoas que estão se investigando, mas ficam só no seu mundo, voltadas para si próprias", diz Irene. "O que ocorre com esse casal é que eles, além de não se perderem de vista nesses 40 anos, também não perdem de vista sua própria integridade", afirma Irene.Segundo a autora, a peça enfoca também a existência de um novo homem, capaz de lidar com suas fragilidades. Aos 70 anos Mariano vivencia algumas situações até pouco tempo consideradas tipicamente femininas: baixos teores de auto-estima e muitas concessões em troca de alguma sedução. Mas o final do espetáculo reserva uma emocionante surpresa."Ambos conseguem ser felizes porque o casamento não acabou com eles individualmente", argumenta Leilah. "Mas a fórmula que encontraram não exime a dor, porque todo crescimento dói", conclui Irene.

Agencia Estado,

15 de novembro de 2000 | 15h31

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