Um carnaval só de grandes filmes

No Belas Artes, que vai resistindo - uma nova data de encerramento das atividades está sendo negociada -, o cinéfilo encontrará uma atraente alternativa para a folia do carnaval. Sob o título Carnaval de Clássicos, o conjunto de salas estará exibindo, à razão de um por dia e sempre às 19 horas, uma série de grandes filmes, de grandes diretores. O que une todos esses os filmes é o sexo. Nada mais de acordo. O carnaval, como todo mundo sabe, é uma festa pagã.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2011 | 00h00

A programação começa hoje com Labirinto de Paixões, um (Pedro) Almodóvar da primeira fase, mais escrachado, e justamente aquele em que o cineasta, propondo uma miscelânea de drogados e filhos de ditadores, aparece, ele próprio, vestido de mulher, com direito a brincos e meia arrastão. Labirinto é de 1982 e Almodóvar, em 1987, após o sucesso internacional de Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos, começou a mudar seu cinema.

O risco, para um ex-hippie criado num internato de salesianos, era se pasteurizar, mas Almodóvar não caiu nessa. Ele amadureceu, sem perder o teor de provocação, e hoje é reconhecido como um dos maiores autores do mundo. A programação prossegue amanhã com outro notório provocador, Pier Paolo Pasolini, com o segundo episódio de sua "trilogia da vida". O ótimo Contos de Canterbury baseia-se em Chaucer e narra com grande verve, embora de forma irregular, diversas histórias.

Um estudante convence o dono da pensão que se aproxima um dilúvio para poder passar a noite com a mulher dele; um idoso casa-se com uma jovem, com os problemas daí decorrentes; um viajante divide a estrada com o próprio Diabo; o demo mostra a um padre o que o espera no inferno, etc. Será impossível não se divertir.

Domingo, será o dia de Wong Kar-wai, com Felizes Juntos. Um par de gays troca Hong Kong por Buenos Aires, onde, como numa letra de tango, a ligação chega ao fim num clima de traição e acusações mútuas. Kar-wai, que fez grandes filmes sobre ligações heteros (Amor à Flor da Pele), nunca foi tão visceral. Além da trilha com direito a Caetano Veloso, o filme tem a mais bela e impactante imagem filmada pelo cineasta - quando um dos protagonistas lava o chão do matadouro em que trabalha, coberto de sangue.

Os demais títulos, a partir de segunda-feira, não são menos atraentes. O tempo em O Jantar, de Ettore Scola; o humor da solidão e da incomunicabilidade em as Férias do Sr. Hulot, de Jacques Tati; e a revisão do mito por Rainer Werner Fassbinder em Lili Marlene. Até carnavalescos vão querer participar dessa festa do cinema.

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