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Milton Hatoum
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Um cárcere de Córdoba

As linhas em espiral na fachada formavam um desenho de impressões digitais numa placa de acrílico. Atravessei a rua e me aproximei da placa: o desenho era feito por nomes de argentinos torturados e assassinados na delegacia da rua Santa Catalina, a poucos metros da Plaza San Martín e da imponente catedral de Córdoba. Essa delegacia tinha sido um dos centros clandestinos de detenção durante as ditaduras argentinas nos anos 1960 e 1970.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2014 | 02h07

No outono parisiense de 1981 conheci um jovem advogado franco-argentino: um desses amigos separados pelo oceano e perdidos na passagem do tempo. Lembro que me contou o destino trágico do irmão dele, assassinado em 1977 nesse mesmo centro de detenção que eu visitei em 2010.

As celas que dão para um pequeno pátio não tinham sido restauradas, sequer pintadas: o lugar do terror de estado permanecia intacto. Uma escada estreita conduz às "solitárias", onde a claridade foi banida e só o verdugo testemunhava o suplício das vítimas.

Quando um Memorial foi inaugurado nessa delegacia - cujo ambiente sinistro lembra o Memorial da Resistência, onde funcionava o DOPS, no centro de São Paulo -, vários objetos que pertenciam aos jovens assassinados foram doados por parentes. Cada objeto tem uma história secreta ou uma história afetiva, que às vezes dá no mesmo. Ao lado de uma lambreta verde-claro, manchada de ferrugem, havia discos de Joan Baez, dos Beatles, de músicos e cantores argentinos e chilenos. Victor Jara já tinha sido assassinado no Chile; poucos anos depois, um louco mataria John Lennon em Nova York. Na mesma cela, vi uma fotografia de um filho abraçado a seus pais. No verso da foto, essas palavras: "Nosso último abraço".

Li poemas escritos à mão, fragmentos de diários, cartas inacabadas: a vida foi vivida ou sonhada? Onde estão meus amigos...? Queridos pais: Ontem à noite...

E tantos livros: poesia, prosa, história, teatro.

Quem teria lido 20 Poemas para Ser Leídos en el Tranvía, do poeta, pintor e desenhista argentino Oliverio Girondo?

A poesia de Girondo andava um pouco esquecida por aqui, mas no ano passado Jorge Schwartz publicou Fervor das Vanguardas, uma excelente coletânea de ensaios sobre o poeta argentino e tantos outros escritores e artistas hispano-americanos e brasileiros do período vanguardista, que coincide com o nosso Modernismo. E agora, ao ler a bela edição brasileira desse livro - ilustrado com desenhos de Girondo e fotografias de Horacio Coppola -, me veio à mente um trecho do poema Pedestre, que li no Memorial de Córdoba, enquanto pensava no outro leitor, assassinado em setembro de 1977.

"Súbito: o guarda da esquina detém com um golpe de batuta todos os estremecimentos da cidade, para que ouça, num único sussurro, o sussurro dos seios que se roçam" (20 Poemas para Ler no Bonde, ed. 34, coleção Fábula, tradução de Samuel Titan Jr. e Fabrício Corsaletti).

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