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Um caracol e dois poemas

Andei remexendo coisas velhas, e, por acaso, encontrei o caracol.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2014 | 07h31

Há muitos anos eu o catei numa praia de pedras escuras, no leste da Inglaterra. O mar também escurecia, e na tarde nublada soprava um vento gelado. Eu estava mal agasalhado, mas as adversidades climáticas não inibem os jovens andarilhos. E o próprio tempo parece uma pausa longa, que lembra a eternidade.

Dei uma volta por um vilarejo naqueles confins das Ilhas Britânicas. O lugar era tristíssimo, mas havia uma pequena livraria, onde comprei um livro de uma poetisa norte-americana. Depois voltei a Barcelona, com o prazer de quem volta para casa.

Décadas passaram, e só agora encontrei o caracol branco, a que o tempo acrescentou manchas de tonalidade ambarina. Mas as estrias espiraladas permanecem nele, e também os sons misteriosos do mar escuro, daquele mar que já parecia fora do tempo, como um desses mitos extraviados, que às vezes nos visitam e emocionam.

Menos difícil foi encontrar os dois livros: o da poetisa Marianne Moore e o outro, de um poeta nicaraguense, que há uns cem anos visitou o Rio e escreveu um poema sobre o Brasil. Que relação havia entre os dois livros e o caracol? A poesia, essa arte capaz de ocultar um mundo de sentimentos e mistérios com poucas palavras. E ali, em estantes diferentes, peguei os dois volumes, separados pelas línguas inglesa e espanhola, mas filhos do mesmo continente que se chama América.

Numa página da antologia poética de Rubén Darío, vi as anotações ao lado do poema Caracol, que eu havia lido na Catalunha, em algum dia de 1980. Na verdade, as anotações esboçavam uma tradução sofrível do belo poema, que começa assim:

"Na praia encontrei um caracol de ouro

maciço e recamado pelas pérolas mais finas;

Europa tocou-o com suas mãos divinas

quando cruzou as ondas sobre o celeste touro".

O soneto termina com esse verso: "O caracol a forma tem de um coração".

Fisguei essa tradução de uma ótima revista de literatura da USP, cujo título é justamente Caracol, em homenagem ao poema de Darío.

O título do poema de Marianne Moore é A Um Caracol. Para a poetisa, a forma desse molusco encerra um dos atributos essenciais do estilo:

"Se ‘compressão é a primeira

graça do estilo’,

você a tem".

Nesse poema, o que deve ser apreciado no estilo não é "a aquisição de uma coisa qualquer, capaz de adornar", e sim "o princípio que está escondido" na linguagem e no próprio caracol: "Na ausência dos pés, um método de conclusões".

E por falar em conclusão, fico por aqui, com a esperança de não ter chateado os leitores com uma crônica sobre caracóis perdidos e achados: seres da natureza que encontramos em praias distantes, objetos verbais que lemos nos livros de poesia.

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