Um cantor no auge ou uma carreira que está apenas começando?

A um desavisado do público que o interpelou pouco antes da estreia de O Nariz, fazendo referência ao humor da história de um major que acorda certo dia sem o nariz, Shostakovich foi categórico: "Não tenho a menor intenção de fazer o público rir. Na verdade, me esforcei para não ser engraçado, e acho que consegui. Por que rir de um pobre infeliz que perde o nariz? Dá vontade de chorar."

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2010 | 00h00

O Nariz é mesmo uma ópera "séria" - e isso se deve à própria origem da história, a peça homônima de Nikolai Gogol. Em uma Rússia em transformação, o homem que perde seu nariz perde também o status social - e, assim, sua humanidade. A crítica que a peça fazia à corte do czar Nicolau I, Shostakovich transporta para a Rússia stalinista. Se o ponto de partida era a perda de um nariz, para funcionar, o absurdo exigiria realismo - afinal, se a música não acreditasse na possibilidade de um homem ser abandonado por uma parte de seu corpo, como poderia o público?

Todo esse pano de fundo teórico serviu, na prática, à criação de uma ópera em que teatro e música dialogam a todo instante. A partitura de O Nariz é rigorosa, reúne uma série de elementos novos; e trata a orquestra como um todo coeso ao mesmo tempo em que a divide em pequenos grupos que são responsáveis por acompanhar séries de personagens ou situações específicas.

Se, por tudo isso, O Nariz é difícil, em alguns momentos, para o público, para o intérprete exige atenção constante. Espremendo bastante o repertório, dá até para dizer que há dois tipos de ópera. Do primeiro, fazem parte as grandes favoritas do público, La Traviata, Carmen, La Bohème, nas quais a beleza da voz reina soberana sobre melodias facilmente reconhecíveis pelo público. Do segundo, títulos que exigem aproximação diferente. Belas vozes são sempre bem-vindas, mas são incapazes de disfarçar a falta de musicalidade ou de talento cênico. É o caso de O Nariz.

E a julgar pela recepção crítica às suas primeiras récitas, Paulo Szot passa a ocupar espaço nesses dois universos. E esse talvez seja o grande significado de sua estreia no Metropolitan. Ao longo de 20 anos de carreira em teatros pequenos da Europa e nas principais casas de ópera brasileiras, Szot foi Don Giovanni, Figaro, Orfeo. Agora, faz sucesso em uma das mais complicadas óperas do repertório, em um grande teatro, com um diretor badalado, William Kentridge, e um maestro mais ainda, Valery Gergiev. Nos próximos meses, desembarca na França para sua estreia na Ópera de Paris, com Mozart, compositor que o formou como cantor. Ao que parece, Szot chegou ao seu auge. Mas, se continuar respeitando a evolução da sua voz, é bem provável que sua trajetória esteja, na verdade, apenas começando.

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