Um canto de amor à cidade, sem ser acrítico ou ufanista

Rio é um canto de amor à cidade de nascimento de Carlos Saldanha. Mas não um canto de amor boboca e acrítico. Por mais que as belezas da cidade tenham seu merecido destaque, também estão presentes as favelas e até mazelas que causaram mal-estar em alguns patrícios mais ufanistas - por exemplo, uns miquinhos ladrões de objetos que bem poderiam representar a ação dos pivetes sobre turistas desprevenidos.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

07 Abril 2011 | 00h00

Enfim, o Rio é como qualquer grande cidade de um país cortado por desigualdades sociais. Mas também, é claro, e este é o ponto mais luminoso do filme, o Rio de Janeiro não é uma cidade como outra qualquer. O Rio é uma cidade diferente de todas as outras. Uma cidade estupenda. E qualquer filme, de animação ou com personagens e locações reais, que não se dê conta disso estará passando a si mesmo um atestado definitivo de insensibilidade estética.

Desse modo, é o aspecto deslumbrante da cidade que sobressai como ambiente para as aventuras da arara-azul Blu, que veio ao Brasil acasalar com a última remanescente da sua espécie. Pode-se dizer que o dilema central da história é meio óbvio: voar ou não voar, porque Blu, ao contrário da sua companheira, foi criado em cativeiro e não sabe planar acima dos mortais. Acontece que o desenvolvimento dessa ideia vai bem além do óbvio, mesmo porque temperada por todo um senso de humor que permeia o filme. Tira, assim, o ranço pretensioso que essas "lições de vida" costumam impregnar o cinema americano.

Claro, se você tomar a espinha dorsal de Rio, verá muitas semelhanças com todo um tipo de cinema de animação. O grande tema moral no miolo (voar, no sentido simbólico, é uma libertação das amarras da vida); os heróis e seus auxiliares de um lado, os vilões do outro. Como não poderia deixar de ser, a mensagem de base contempla também o necessário libelo ecológico, sem o qual hoje em dia não se faz nada: salvemos as espécies em extinção, que devem recuperar seu lugar na natureza, longe dos seus predadores humanos.

Mas o fato é que olhar apenas para essa estrutura do filme seria deixar de vê-lo de corpo inteiro e no que tem de mais atraente. Seria como julgar uma bela mulher pela radiografia do seu sistema ósseo. Se a estrutura sustenta o organismo, é preciso atenção especial para a criatividade com que as cenas de humor são construídas e a inspiração com que personagens se relacionam entre si. Rio vive dessa mescla de emoção e humor, sem dispensar as grandes sequências que ficarão na memória do espectador. Duas, talvez, em particular: o desfile da escola de samba com seu esplendor realista; e o voo em asa delta (ao som de Mas Que Nada, de Jorge Benjor) sobre a Cidade Maravilhosa, que nunca mereceu tanto este título de cidadania mundial.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.