UM BRINDE AO ROMANTISMO

Amor É Tudo o Que Você Precisa tem como base experiência da mãe da cineasta

ELAINE GUERINI, ESPECIAL PARA O ESTADO / VENEZA , O Estado de S.Paulo

07 de março de 2013 | 02h17

A dinamarquesa Susanne Bier não aprova o título que Amor É Tudo o Que Você Precisa ganhou no mercado internacional. "Preferia A Cabeleireira Careca, como o filme é chamado originalmente, por remeter à questão do câncer e da queda de cabelo (tratada na história) com senso de humor.'' Mas a diretora de 53 anos sabia que faria concessões em sua primeira tentativa de conciliar "o espírito do cinema de arte" com uma "proposta mais comercial". "Ouvir o que os distribuidores internacionais dizem faz parte do negócio. Como eles temiam que o meu título afastasse o espectador das salas, quiseram brincar com a mensagem dos Beatles'', diz, referindo-se à canção All You Need Is Love, lançada em 1967.

Após conquistar o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2011, com o drama Em Um Mundo Melhor, Susanne quis aproveitar a visibilidade para se aventurar em produção acessível ao grande público. "Não é o que todo diretor na minha posição faz? Ou pelo menos quer fazer?'', pergunta a cineasta, desta vez à frente de uma comédia romântica. Ainda que rodada na Europa (entre Dinamarca e Itália), sua incursão no gênero segue os padrões de Hollywood, trazendo Pierce Brosnan no papel de galã, o que impõe o inglês como uma das línguas oficiais, ao lado do dinamarquês. "Eu não classificaria o filme como comédia romântica, mas, segundo as regras da indústria, um drama precisa terminar mal. Como não é o caso aqui, não tive como brigar.''

Em cartaz a partir de amanhã no Brasil, Amor É Tudo o Que Você Precisa não responde apenas a um desejo mais mainstream da diretora. "Há tempos eu queria trabalhar com material mais leve e romântico, mas sem necessariamente abrir mão do realismo, da profundidade e da dureza da vida. Não queria dirigir, mais uma vez, com a mão tão pesada'', conta a cineasta, também conhecida pelos títulos dinamarqueses The One And Only (1999), Corações Livres (2002), feito sob as regras do Dogma 95, Brothers (2004) e Depois do Casamento (2006).

O projeto nasceu como uma homenagem de Susanne à mãe, uma sobrevivente do câncer de mama. "Para fazer jus à história que acompanhei de perto, precisaria de uma abordagem cheia de esperança. Minha mãe, que enfrentou a doença duas vezes, sempre foi muito positiva. Mesmo quando ela estava se sentindo péssima, procurava se lembrar de como eram atenciosas as enfermeiras do hospital.''

Sua mãe é revivida nas telas por Trine Dyrholm (de Em Um Mundo Melhor), escalada para o papel da cabeleireira que perde um seio, todo o cabelo e o marido - que a troca por jovem com idade para ser sua filha. "Justamente por estar num momento tão desastroso de sua vida é que ela merecia conhecer o homem dos sonhos de toda mulher: uma espécie de James Bond charmoso e sedutor, mas com mais conteúdo e paixão'', diz a diretora, justificando a escolha de Pierce Brosnan no elenco. O ator irlandês interpreta aqui um executivo viúvo e amargo que redescobre o prazer de viver ao conhecer a cabeleireira sofrida a caminho da Itália - onde a filha dela e herdeiro dele decidem subir ao altar. "É um amor maduro, o que destoa da comédia romântica tradicional por apresentar protagonistas bem acima dos 25 anos.''

O olhar de Susanne para o mercado internacional talvez traduza a insatisfação da diretora com a falta de reconhecimento de seu trabalho em sua terra natal. "Com Em Um Mundo Melhor eu ganhei o Oscar, o Globo de Ouro e a estatueta de melhor cineasta europeu, mas sequer fui indicada para o prêmio dinamarquês equivalente. Nem levaram em consideração a grande plateia que tenho no meu país.'' Na visão de Susanne, isso é resultado de "um certo esnobismo, típico da crítica dinamarquesa''. "Só os filmes pouco compreensíveis e estranhos podem ser considerados obras-primas. Se o público aprovou, não pode ser bom.''

SUSANNE BIER

CINEASTA DINAMARQUESA

Nascida em Copenhague, em 1960, Susanne Bier ficou conhecida mundialmente por Em Um Mundo Melhor (2010), longa que conquistou o Oscar de filme estrangeiro e o Globo de Ouro de melhor longa.

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