Um Brecht jovem para Aderbal

Diretor estreia no CCBB do Rio peça montada uma única vez no Brasil, em 1969

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2011 | 00h00

Em 1969, a ditadura militar em seu período mais duro, uma montagem do Oficina de Na Selva Das Cidades transformou-se num marco do teatro brasileiro. A encenação de Zé Celso Martinez Corrêa para o texto escrito por um Bertolt Brecht de 2o e poucos anos tinha cenografia e figurinos de Lina Bo Bardi, e Othon Bastos e Renato Borghi nos papéis de Schlink e Garga, ali se enfrentando num ringue de boxe localizado na Chicago de 1912. O velho capitalista malaio que quer comprar a opinião do jovem (a princípio) idealista retoma o embate no palco do teatro 1 do Centro Cultural Banco do Brasil do Rio, agora sob a mediação de Aderbal Freire-Filho. O diretor, para quem o dramaturgo alemão é "um companheiro de toda a vida", não viu a montagem de Zé Celso, mas ouviu seus ecos. Não reproduziu o ringue, mas os dois adversários, desta vez Daniel Dantes e Marcelo Olinto, não fogem à luta. Maria Luisa Mendonça é Marie, a irmã de Garga que se perde na vida.

"Brecht queria que o teatro fosse tão apaixonante quanto o esporte. Na Selva, um peso pesado (Schlink) desafia um peso leve (Garga), e se revelam golpes inesperados", conta Aderbal, que em 40 anos de palcos havia feito um único Brecht, Turandot (93), escrita na maturidade pelo autor.

"Todo o meu teatro é parabrechtiano. Fazer um Brecht jovem agora me rejuvenesce muito", diz o diretor, com seus 70 anos recém-completados, que também está em cartaz no Rio com Depois do Filme, monólogo derivado de Juventude, o filme de Domingos Oliveira sobre a amizade, a amor e o agir do tempo.

Marcelo Olinto, da Cia. dos Atores, é quem chamou Aderbal. "Ele tem uma escrita cênica muito particular", justifica. "Brecht está dizendo: "Será que é possível viver harmoniosamente nas cidades?" O olhar dele é sombrio, aponta para a impossibilidade."

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