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Um brasileiro em Nova York

O direito de não se vacinar é moralmente equivalente ao direito de pular de um abismo

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2021 | 03h00

1. Nascido no gigante adormecido, Jair Bolsonaro foi à cidade que jamais dorme para fazer um discurso na ONU. 

O resultado foi um discurso pífio e um patético flagrante do Supremo Mandatário e de sua comitiva desamparados, comendo pizza numa calçada. É claro que, como já mencionei aqui, Bolsonaro se acha acima das normas e da biologia, embora tenha contraído a doença. Superiores não se vacinam e irresponsavelmente esquecem o caráter exemplar dos seus cargos. Você pode ser individualista, mas o vírus é coletivista.

Bolsonaro é uma extremada ambivalência ambulante, essa marca dos poderosos nacionais. Pois, com raríssimas exceções, ter poder é “ter a faca e o queijo nas mãos”, é ignorar normas. Seja porque os “superiores” não as obedecem ou porque estão convencidos de que são seus donos. Afinal, eles as inventam e, se têm esse poder, não precisam segui-las. Elas são feitas para o “povo”. As elites legislativas (que estão em todo lugar) relativizam tudo com o “você sabe com quem está falando?”.

Só que em Nova York as regras valem para todos. Um presidente pode declarar uma guerra, mas não acaba com o ataque viral... Se recusando a fazer em Roma como os romanos, Bolsonaro viu sua teimosia virar pizza. 

2. Seus defensores dizem que a implicância com a vacinação é um exercício de liberdade. Ignorantes, não sabem que o mais importante papel público da República restringe a vida pessoal. O preço do comando é a paradoxal submissão do comandante ao seu papel. Poderes excepcionais roubam o prazer dos papéis comuns. O capitão de um navio tem medo da tempestade como passageiro, mas como capitão ele a enfrenta. O preço do papel cerimonioso é sagrado, porque pertence ao povo, tem exigências.

Nosso “esquecido” viés aristocrático acentua os privilégios, ignorando suas responsabilidades. É nesse espaço que germinam a corrupção e a destruição institucional da má-fé golpista. 

3. Então o presidente não tem direitos? Eis uma grave questão. Claro que ele decide sobre sua vida pessoal, mas com uma aguda consciência dos papéis que desempenha. Pode o Supremo Mandatário da Nação fazer campanha contra a vacina, tomando o partido da pandemia e da morte? Pode convocar o povo a apoiá-lo no desmonte dos poderes da República? 

4. É óbvio que, como cidadão, ele pode ser o que bem entender desde que perceba que o seu lugar como pessoa comum foi englobado pelo cargo para o qual foi eleito e que dele exigiu um juramento de lealdade. O juramento solene de lealdade ao papel torna o papel mais importante do que o ator. 

Numa democracia, talvez o mais espinhoso seja a exigência de que ele é um ocupante temporário do cargo – um cargo, aliás, interligado a outros poderes. Algo obviamente difícil para mandões numa sociedade na qual o “mandonismo” – como dizia a socióloga Maria Isaura Pereira de Queiroz – é parte inconsciente do poder como no Brasil. Aliás, com esse viés absolutista, como resistir a parentes, comadres, amigos, bem como às seduções do sicofantismo e, sem dúvida, à burrice teimosa que faz parte de todo papel de direção e é uma característica do governo Bolsonaro? 

5. Numa Nova York pandêmica, essa consciência do papel foi aguçada. O representante de um país tem o dever de exibir o bom senso desse país. Coisa ignorada pelo presidente que, diante de uma pandemia, entende ser contra a vacina e se expõe ao ridículo de verbalizar isso numa cidade que impôs a regra sanitária da vacinação em lugares reservados. 

O direito de não se vacinar é moralmente equivalente ao direito de pular de um abismo. Alguns direitos – o de matar, cometer incesto ou procurar adoecer – são interditos. Verbalizados, eles denunciariam a penúria ética da sociedade. É exatamente isso que está em jogo com as vacinas. Não é a liberdade do idiota que não se vacina, mas a ameaça que ele representa para os que com ele convivem. 

É ANTROPÓLOGO SOCIAL E ESCRITOR, AUTOR DE ‘FILA E DEMOCRACIA’

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