Um brasileiro em Boston

"Isto não é frio", disse o porteiro Zé Pádua. "Frio mesmo é em dezembro, janeiro... Aí Boston gela, mas mineiro se acostuma a tudo, quase tudo."

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2012 | 03h09

Há quanto tempo você mora em Boston?

"Vinte e oito anos e três meses", ele disse, com precisão. "Meu pai chegou primeiro, arranjou trabalho e depois trouxe os filhos. Minha mãe teve seis: três moram aqui, três em Belo Horizonte."

Fazia um frio de lascar nessa noite de abril na Nova Inglaterra. Mais acima, à direita do hotel, há um cemitério antigo, onde estão enterrados mortos anônimos. Lápides inclinadas, esparsas, cravadas num gramado perfeito, tão perfeito que parece irreal. De longe, as peças de pedra espalhadas no gramado lembram uma instalação contemporânea.

Boston atrai turistas de todos os cantos, e também cientistas e pesquisadores. Cambridge está logo ali, no outro lado do Rio Charles. Massachusetts é uma espécie de Atenas do nosso tempo, e Zé Pádua lamenta não ter podido estudar em nenhuma das dezenas de universidades do Estado.

"Não tive tempo para ficar sentadinho, lendo livros. Fui cozinheiro de restaurante mexicano, português, cabo-verdense. Quando bate a saudade, preparo tutu, pão de queijo, galinha com quiabo."

Quiabo em Boston?

"Quiabo e taioba", ele afirma. "Planto taioba no verão, dá que nem mato. Um imigrante faz milagres. E se você tiver sorte, ganha um dinheirinho."

Pediu licença para carregar as malas de um hóspede, entrou no hotel, demorou um pouco, voltou sorridente.

"Ganhei dez dólares", disse Zé. "Aqui os hóspedes pagam pelo trabalho. Uns oito anos atrás trabalhei num hotel de luxo no Brasil. A maioria dos hóspedes não me dava nada, um ou outro me dava dois reais, cinco no máximo. Um hóspede que paga seiscentos reais por uma diária e dá dois de gorjeta... Não entendo isso. Queria ficar no Brasil, mas não assim, ganhando mixaria e vendo políticos bandidos rindo do povo."

Passava da meia-noite quando lhe perguntei quanto ganhava por noite. Ele tirou um maço de cédulas do bolso e sorriu.

"Hoje ganhei uns 120 dólares. E ainda recebo o fixo, por semana. Dizem que no Sul dos Estados Unidos os negros penam, mas aqui é um pouco diferente. Se você trabalhar, você ganha. Pode ser negro, asiático, árabe, hispânico. No começo foi muito difícil, passei cinco anos vivendo como um bicho. Dormia pouco e morria de saudade de Minas, de minha mãe e dos meus irmãos."

Seus pais não moram aqui?

"Meu pai morreu em 1999, está enterrado em Boston."

E sua mãe?

"Vem e volta. Mãe de muitos filhos tem coração dividido. Tenho cidadania norte-americana e consegui um green card pra ela. Mas quando chega aqui, fica triste, diz que não tem amigos, não tem com quem conversar, sente saudades dos filhos que estão em Minas, acha tudo triste. E dois meses depois ela me pede pra comprar a passagem de volta."

A essa hora da madrugada tudo fica escuro, só as luzes da Rua Newbury brilham a uns cem metros do hotel. Um carro com placa de Ohio estaciona e Zé Pádua se apressa a abrir a bagageira da caminhonete e carregar as malas.

Quando ele volta, esfrega as mãos e diz que está ansioso para viajar para Belo Horizonte. Ele e os dois irmãos vão passar duas semanas de julho em Minas.

"Minha velha vai festejar os 80 anos no dia 5 de julho e quer todos os filhos perto dela. O que a gente não faz por nossa mãe? É ou não é? Domingo vou tirar folga e convidei uns amigos pra comer um tutu de feijão com lombinho. Você está convidado. Vai conhecer uma casinha de pobre, longe desta Boston que a gente está vendo. Casa mineira, com boa cachaça, música e conversa. Você vem?"

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