Alessandra da Mata/AE
Alessandra da Mata/AE

Um brasileiro 'Boiando em Moçambique'

Rafael Moralez escreveu livro bem humorado sobre sua passagem por Moçambique

ALESSANDRA DA MATA, Agência Estado

01 Abril 2011 | 12h47

Você já foi à Moçambique? Nãããooo!!! Pois então esse é o momento. O escritor Rafael Moralez, 37 anos, te convida a viajar para esse país africano através das páginas do seu novo livro "Boiando em Moçambique", lançado em março, pela Balão Editorial. A história começou em meados de 2009. Formado em Filosofia e mestrando um curso multidisciplinar de Energia, Moralez foi convidado a prestar Consultoria em um projeto educacional na cidade africana de Moatize, que fica há 20 quilômetros da província de Tete, onde ficou instalado.

Chegando lá, não sabia ao certo quais as dificuldades iria enfrentar. Afinal, o país sofre com um atraso de desenvolvimento inegável, e, para alguém que morava numa cidade como São Paulo, essas diferenças poderiam causar um choque muito grande. Mas, mais do que deixar as facilidades da capital paulista para trás, a saudade da família e dos amigos foi o que mais o incomodou.

"Embora tenha uma grande quantidade de brasileiros morando em Moçambique, a ideia de me confinar com esses compatriotas não me agradava muito", disse. "Optei então por passar o tempo que tinha livre com os moradores locais, tentando entender as peculiaridades de um país que sofreu por tantos anos sobre o domínio europeu."

Dessa forma, o estrangeiro começou a passear pelas cidades da província, e a registrar tudo o que via com sua câmera. Com um olhar irônico e espontâneo sobre os usos e costumes luso-africanos passou também a escrever sobre suas percepções para que tais momentos não fugissem da sua memória. Foi assim que nasceu o blog "Boiando em Moçambique".

"A ideia inicial era criar um diário de bordo online para que meus pais e amigos pudessem acompanhar minha rotina durante esse intervalo de tempo que estive fora", diz. Segundo ele, essa era uma forma de amenizar a saudade de todos. O que Moralez não esperava, era que o blog passasse a ser visitado por tanta gente. "Tinha dias que, ao abrir a página pela manhã, o apontador já marcava 300 acessos, uma loucura", comenta.

Bem provável que a forma irreverente e descomprometida com a qual o viajante contava suas agruras tenha despertado a atenção dos leitores virtuais. "Boiando em Moçambique" acabou fazendo sucesso sem que fosse algo de fato premeditado.

Com seu jeito peculiar de observar os acontecimentos, contava no Blog os "causos" da viagem, reunindo ao mesmo tempo histórias divertidas, mas com uma visão social da situação precária do interior de Moçambique. Relatou sobre as bebidas locais, os bares improvisados, as cenas de animais carregados em bicicletas, a confusa situação política da região, a vida das mulheres nas comunidades entre outras pérolas.

Ao retornar ao Brasil, seis meses depois, Moralez foi convidado pela Balão Editorial para transformar seu blog em um livro ilustrado com as fotos da viagem e desenhos do próprio autor. "Gostei da proposta da Balão. Depois de toda a discussão de que o livro palpável iria acabar para dar lugar ao virtual, essa é a prova de que a realidade é outra, meu blog está indo para o papel, para que todos possam leva-lo à qualquer lugar."

A publicação de "Boiando em Moçambique" ganhou mais alguns capítulos que não estavam no blog, e claro, passou por uma revisão. "Mas todo o conteúdo da página virtual está lá!", salienta. "Acho importante dizer que procurava escrever as histórias do meu dia a dia com humor, mas, nunca quis transformar a realidade daquela nação em motivo de piada", justifica o autor.

Para ele, "explorar" a fragilidade de um país que vive em situação tão precária, não soa correto. Embora algumas passagens sejam engraçadas é preciso perceber nas entrelinhas a postura crítica de Moralez. "Não pretendi fazer com que as pessoas rissem simplesmente, o humor deve vir acompanhado de muita reflexão sobre o tema."

O autor ainda comenta sobre as questões complicadas de progresso nas quais vivem os moçambicanos. "Historicamente, a situação da população, que também foi colonizada por portugueses, não se compara a nossa. Eles foram massacrados pelo sistema dominante, e, mesmo com as revoluções sociais, ainda não conseguiram alavancar o desenvolvimento", reflete.

A experiência lhe valeu para se dar conta do que realmente faz sentido na vida das pessoas. "Pode ser clichê isso que vou dizer agora, mas, essa vivência me fez mudar determinados valores. Em uma situação em que dei minha bicicleta para um africano, vi o quando coisas pequenas como essa pode transformar a vida de alguém." Essa passagem retrata o momento em que o escritor pretendia despachar sua bicicleta para o Brasil. Ao descobri que o valor da taxa era absurdamente cara, decidiu oferecer a "bike" ao atendente, ali mesmo no desembarque. "A reação do africano ao ganhar aquele ''presente'' foi absurdamente recompensador."

Boiando em Moçambique

Autor: Rafael Moralez

Editora Balão Editorial

Preço: R$ 30.

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