Um Bortolotto engajado e político

Mário Bortolotto tem alma de rebelde. Nas dezenas de peças que escreveu, convoca à cena figuras à margem da sociedade, sempre prontas a escapar à regra. Filhos da burguesia inconformados, inaptos para a vida usual e banal a que estariam inevitavelmente destinados. É a esse mesmo sentimento de revolta - tão costumeiro em sua dramaturgia - que reencontramos em À Meia-Noite Um Solo de Sax sobre a Minha Cabeça, montagem que estreia hoje no Espaço Parlapatões.

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2011 | 00h00

Há uma diferença, contudo, que sobressai nessa peça produzida em 1983: seu sentido político. Uma política que não aparece sugerida, mas escancarada. A marcar todas as passagens e reviravoltas da obra. "É minha única peça que fala de política de maneira tão explícita. Acho que depois aprendi a tratar disso de outra maneira", observa o autor, que também se encarrega da direção.

Concebida nos estertores do regime militar, o texto atravessa as décadas de 1960 e 70 para pontuar os acontecimentos que marcaram o País no período. E, a conduzir a trama, coloca em relevo as trajetórias antagônicas de dois amigos.

Billy e Jesse, interpretados pelos parlapatões Fabio Espósito e Henrique Stroeter, conhecem-se no berçário. As diferenças se estabelecem desde o início. Billy (Henrique Stroeter) é filho de prostituta e logo enfrenta dificuldades. Cresce sempre pronto a questionar o estabelecido. Torna-se ativista político. Jesse é seu oposto. Filho da classe média, é cioso das comodidades e da estabilidade.

Ao longo do espetáculo, a dupla encontra-se em 13 momentos - instantâneos das décadas que o texto atravessa. Nesses encontros, as conversas miram quase sempre as estripulias sexuais de ambos, mas deixam entrever as transformações na política e no comportamento do Brasil daqueles anos. Um tom que, conforme lembra Bortolotto, levou o texto a sofrer várias censuras à época de seu lançamento.

Não é a primeira vez que À Meia-Noite Um Solo de Sax sobre a Minha Cabeça é montado. O texto mereceu algumas versões, entre elas uma encenação conduzida por Cibele Forjaz que trazia Raul Cortez como protagonista, em 2004. Em todas elas, porém, fica evidente que o mais importante - para além das discussões ideológicas - é o sentido que as relações de amizade adquirem na ficção de Bortolotto. As diferenças entre Billy e Jesse só se aprofundam conforme os anos passam. Mas existe a promessa de que esse afeto perdure. "É um texto que já revela muitos dos temas de que minha dramaturgia trataria depois", comenta o autor.

Lá, já estão os laivos de Jack Kerouac que permeariam as suas criações dali em diante. A linguagem é tão ligeira e sem floreios como a que notabilizou Nossa Vida Não Vale um Chevrolet. O foco permanece fixo, voltado sobre esses personagens "transviados", sobre essa "geração beat", que o autor insiste em transportar para São Paulo.

À MEIA-NOITE UM SOLO DE SAX...

Espaço Parlapatões. Pça. Roosevelt, 158, tel. 3258-4449. 3ª e 4ª, 21 h. R$ 30.

Até 16/3.

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