"Um Bonde Chamado Desejo" volta ao palco

Soa duas vezes a sineta do teatrono palco do Sesc Belenzinho. Pela platéia entra a atriz LeonaCavalli puxando uma imensa mala/baú. O endereço que ela procuraestá diante do público, no centro do palco: um cubículo dequatro metros quadrados, delimitado apenas nas quatro bordas porfitas presas do chão ao teto. Nesse reduzido espaço, o públicovai acompanhar sentado no palco, de muito perto, um dos maisbelos dramas teatrais já escritos: Um Bonde Chamado Desejo,de Tennessee Williams. A montagem dirigida por Cibele Forjazestréia nesta sexta-feira à noite no Sesc Belenzinho, zona leste deSão Paulo. Leona Cavalli vive Blanche Dubois, uma mulher outrorarica e refinada, hoje falida e à beira do alcoolismo. Quando apeça tem início, ela está chegando a um bairro pobre de NewOrleans, onde mora sua irmã Stella (Isabel Teixeira). Blanchechega traumatizada, com os nervos à flor da pele, depois de terperdido a propriedade da família, o marido, o emprego deprofessora. Sem renda, sem trabalho, sem ter onde viver, terá dedividir a pequena casa de dois cômodos, separados por umacortina, com a irmã e o cunhado Stanley Kowalski (Milhem Cortaz) um homem rude que, como um animal, vai "defender o seuterritório" contra aquela invasão. Quando soa o terceiro sinal no palco do Sesc Belenzinho,Blanche, com o auxílio de uma vizinha, já entrou na casa vazia e sentada no seu imenso baú que "atravanca" a passagem, esperapela irmã que a vizinha foi chamar. Na platéia, apenas meiadúzia de espectadores convidados pela direção assistem a umensaio geral, às vésperas da estréia, ao qual a reportagem teveacesso. "A montagem está ainda melhor que Toda Nudez SeráCastigada", entusiasmou-se ao fim da apresentação o diretorFauzi Arap, um dos convidados. Ele fazia referência à montagemda peça de Nelson Rodrigues protagonizada por Leona, que ganhouo Prêmio Shell 2000 por sua atuação como Geni, também dirigidapor Cibele Forjaz. Agora, a atriz repete a parceria com adiretora e toda a equipe de criação, na concepção de Um BondeChamado Desejo. "Minha intenção foi realizar uma direção invisível.Queria que o público acreditasse na história que teria diantedos olhos", diz Cibele. "Mais do que uma sacada de diretora,eu queria que esses personagens ganhassem vida." Desde ocenário, uma bem definida casa, porém com paredes invisíveis, amontagem coloca o espectador como voyeur das relações de atraçãoe repulsão, conflitos e afetos entre os quatro personagenscentrais. Quatro, porque apesar do asco que a rudeza do cunhadoe seu ambiente lhe despertam, Blanche faz uma última tentativade superar suas perdas. Corresponde ao flerte de um amigo deKowalski, Mitchell (João Signorelli), e inicia um namoro quepode dar em casamento e proporcionar segurança afetiva efinanceira. Mas Kowalski vinga-se do desprezo com que é tratado,destruindo a última esperança de Blanche. "Acho que o mais importante nessa peça é esse fio denavalha que separa sanidade e loucura", diz Cibele. "A peçainteira lida com esse contraponto entre fantasia e realidade.Blanche diz textualmente: ´ Não quero realidade, quero magia´.Ela acredita que a delicadeza e a arte podem melhorar o mundo,vencendo a brutalidade, a miséria e a violência." Se na peça é a violência de Kowalski que acaba vencendo,na vida real venceu a delicadeza. Sem patrocínio, o grupo nãotinha como pagar os direitos autorais do texto. Num gesto derara grandeza, a atriz Louise Cardoso "presenteou" o elencocom o valor necessário. "Ela pagou com seu dinheiro, sem pedirnada em troca, sem nos conhecer, só porque havia gostado deToda Nudez. Foi um gesto de delicadeza, de generosidade deuma atriz para com o teatro."Serviço - Um Bonde Chamado Desejo. De Tennessee Williams.Direção Cibele Forjaz. Duração: 150 minutos. R$ 12,00 (sexta) eR$ 20,00. Sesc Belenzinho. Avenida Álvaro Ramos, 991, zona lestede São Paulo, tel. 6605-8143. Até 28/4

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