Um best seller no caminho de Fernanda Young

Em janeiro de 1999, em uma entrevista, Fernanda Young dizia que queria ser best seller: "Não quero ser cult, quero ser best seller." Naquela época, Fernanda, então com 28 anos, acabava de publicar seu terceiro livro, Carta Para Alguém Bem Perto. Já escrevia para a TV Globo (Comédia da Vida Privada) e preparava-se para assinar seu primeiro roteiro no cinema (Bossa Nova, de Bruno Barreto). Apenas três anos depois, Fernanda lança O Efeito Urano, seu quinto livro. Nesse meio tempo, lançou mais um livro (As Pessoas dos Livros), mais um programa (Os Normais), compôs duas músicas com Marina Lima (Estou Assim e Síssi) e estampou sua literatura numa coleção de roupas da Ellus. Todos fizeram sucesso.O Efeito Urano (R$ 22,90, 142 págs.) foi lançado no início da semana e teve a primeira edição esgotada em três dias. Com uma carreira que impressiona pela rapidez com que é construída, Fernanda já é quase best seller.O Efeito Urano é o segundo livro da coleção Cinco Dedos de Prosa (Editora Objetiva), na qual cada autor tem um dedo como objeto de inspiração. Ao receber a encomenda, Fernanda escolheu o dedo médio, o pai-de-todos, como ela o chama. "Nada que é médio pode ser grande coisa, e ele é o maior", diz.Estão ainda na coleção Carlos Heitor Cony (indicador), Mário Prata (mindinho), Manoel Carlos (anular) e Luís Fernando Veríssimo (polegar). No livro, Fernanda conta a história de uma mulher, Cristiana, que se apaixona por outra, Helena. Cristiana é casada com o psicanalista Guido; Helena está acostumada a namorar mulheres. Apaixonada, Cristiana faz um monte de loucuras. Sabe o tempo todo o que está fazendo, mas parece não ter medo, numa espécie assustadora de transe."Nem estamos aqui pra julgar se são loucuras ou não", conta Fernanda. "Ela tem a nítida sensação de que está enlouquecendo por causa da paixão. Eu quero que as pessoas atentem para este fato." Você acha que "O Efeito Urano" é um livro erótico? Fernanda Young - Sim. Antes, eu achava que não. Mas, depois que eu vi o objeto livro - a capa, a orelha, a contracapa -, mudei de opinião. Acho que se o livro fosse tratado externamente de maneira diferente não seria erótico, mas como ele se apresenta ficou erótico. Foi você quem escolheu o dedo médio? Sim. Acho que fui bem óbvia, até. O mindinho é uma pessoa cafona, que levanta o dedo para tomar café. O anular é o do casamento. O indicador é pra apontar, polegar é pra fazer ok. O médio tem uma conotação sexual. E, a partir de um dedo, como foi criada a história? Quando eu recebi a encomenda da Objetiva, já tinha alguns escritos, dos quais utilizei muito pouco. Mas esse pouco acabou conduzindo a eroticidade da história. E eu estava num momento oposto ao ritmo que aquelas primeiras páginas me impunham, tinha acabado de dar à luz (às gêmeas Estela May e Cecília Madonna, de 1 ano). Eu acho que a narrativa das passagens onde há sexo no livro são de uma crueza que se torna, por meios muito esquisitos, erótica. Mas não são nem tão poéticas nem libidinosas nem fantasiosas. São práticas. É um livro que me exigiu muita imaginação e, pela primeira vez, pesquisa. Eu li livros específicos, retornei a Freud, li O Relatório Hite, li muito sobre a sexualidade. Durante a fase em que estava escrevendo esse livro - e ao mesmo tempo aprendendo com muito susto o que é a maternidade -, estava totalmente sem identidade em vários setores da minha vida. O único que se manteve forte foi o da literatura. Ali eu estava prestes a sumir. Foi um exercício de grande demonstração do meu lado ficcional. Então, se as pessoas resolverem sondar a veracidade dos fatos, será uma perda de tempo. Você, então, estava assustada com a repercussão? Não sou uma pessoa frágil, mas estava assustada, sim. É um assunto que é como uma bota branca: pode tanto vestir bem como mal. Ele ainda me assusta. Cada vez menos. Só publiquei porque o Alexandre (o marido de Fernanda, o roteirista Alexandre Machado) me apoiou muito para que eu usasse o máximo de liberdade para escrever. Não poupei esforços para falar o que a história pedia. É muito difícil falar de homossexualismo feminino? É, porque todos os assuntos referentes à mulher são envolvidos em meias-verdades, mentiras, panos e máscaras. E a mulher, para se proteger, até quando faz algo incomum, tende a se acovardar por mais uma camada. Ela não rompe. O homem, não. Quando assume a sexualidade, ele rompe várias e várias paredes. Agora, há também uma hipocrisia. Não estou esperando romper nenhum tabu, mas espero que os meus leitores adentrem, por um instante, nesse universo tão mafioso, que é o das mulheres. O que eu ofereço é um pouco mais de realidade a respeito das mulheres, tanto para os leitores quanto para as leitoras. Tecnicamente, "O Efeito Urano" parece singular dentro de sua obra. Ele tem uma narrativa dura que os outros não tinham. É um livro duro, tanto na história quanto no texto. É uma leitura dinâmica, mas difícil, porque o assunto é difícil. O ritmo que eu imponho ao raciocínio do leitor também não é um ritmo fácil. Mas sempre tento me utilizar de um ritmo para escrever. O jeito como eu escuto as minhas frases lidas em voz alta conta muito. Eu acho que as pessoas reagem a este ritmo lendo o livro rapidamente. Então, é essa a congruência que há entre este livro e os anteriores. Teve um momento, enquanto escrevia o livro, em que você descobriu o tal efeito urano. Como foi? Eu estava escrevendo e, de repente, pensei que queria mostrar que aquilo tudo era resultado de uma equação, que viesse a ser uma prova naquele julgamento de Cristiana. Já que ela se coloca como uma ré, eu queria que tivesse uma prova a favor dela. Achei que essa prova não poderia ser moral, pois não há nada no mundo dos homens que pudesse justificar aquela paixão e todas as coisas erradas que ela sai fazendo. Eu queria dar a ela uma motivação cósmica. Os dados científicos descritos sobre o efeito urano são reais, mas a poética, a leitura desses dados é ficcional. Mas acho interessante que as pessoas acreditem nesse poder cósmico de absolvição. Depois de cinco livros publicados, o que você pode dizer sobre a crítica especializada em literatura? Olha, eu não posso ser tão otimista nem tão pessimista. Eu fiz um caminho de mídia muito singular. Em cinco anos de profissão, eu não aponto terríveis momentos da crítica comigo. Acho, sim, que há uma implicância de uma faixa de intelectuais que tende a presumir que eu seja um produto descartável por causa da influência pop que eu tenho. A velha implicância com o best seller, com quem faz sucesso? É, infelizmente sem que eu seja best seller. Isso acontece porque estou traçando um caminho de quem será best seller um dia. Mas não estou nervosa com isso. Talvez eu até possa vender mais livros quando estiver morta. Será ótimo porque minhas filhas vão ganhar dinheiro. Eu estou apenas defendendo o que me pertence. O meu comportamento em busca disso é criticado. Mas, o que querem? Que eu escreva meus livros e fique quieta, me fazendo de misteriosa?

Agencia Estado,

30 de outubro de 2001 | 11h10

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