Um belga alucinado no olho do furacão latino

Destaque da Bienal de São Paulo, o belga Francis Alÿs enfrentou literalmente tornados para realizar o vídeo que exibe na 29ª edição da mostra (ver imagem na página 17 do caderno especial da Bienal que circula hoje). Ponto de partida para a realização desse vídeo, o livro Tornado será lançado hoje com a presença do autor, recentemente homenageado pela Tate Modern. Tornado é o trabalho mais ambicioso de Alÿs, que há dez anos persegue o fenômeno meteorológico pelo México, onde mora, fotografando e filmando esses redemoinhos.

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2010 | 00h00

O que é desordem para muitos, para Alÿs é um sinônimo de harmonia. Ele admite que ficou "viciado" em tornados - e o livro mostra como o artista, auxiliado por um matemático, se esforça para provar que furacões "são casos de ordem emergindo do caos". Ele traça uma correspondência analógica entre o crescimento das massas urbanas - que resulta em guerras pela sobrevivência - com os efeitos dessa turbulência natural. "No entanto, a sensação que você tem depois que o tornado passa é de harmonia e paz", observa Alÿs, cuja voz pausada e calma pouco tem a ver com seus vídeos - sintéticos, rápidos e extremamente críticos.

Alÿs tem algo de Beckett. Prova disso é o vídeo Sometimes Making Something Leads to Nothing (1997), em que arrasta um bloco de gelo pela via pública até derreter. Em outro vídeo, VW Beetle (2003), ele empurra um fusca pelas ruas de Wolfsburg, Alemanha, em meio a carros de luxo - e sob chuva - sem que nenhuma alma caridosa se disponha a ajudá-lo. Talvez isso explique por que preferiu ficar no México e enfrentar violentos tornados. São menos perigosos do que o frio continente europeu.

NUMA DADA SITUAÇÃO

De Francis Alÿs. Cosac Naify, 152 págs., R$ 100. Lançamento hoje, às 19h30. Livraria Cultura. Avenida Paulista, 2.073

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