Um bar no Leblon

Com tanta gente com medo de vir para o Rio, onde tem zica, assaltos e corruptos saindo, apropriadamente, pelo ladrão, é bom lembrar os visitantes ilustres que já tiveram por aqui e saíram ilesos. E imaginar que tivessem ficado, seduzidos pelo nosso sortilégio tropical, pela caipirinha ou por qualquer outra razão.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2016 | 02h00

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Imagine se os ficados se reunissem regularmente num bar do Leblon, desprezando suas diferenças de idade e das épocas em que estiveram no Brasil. Aquele ali com as longas barbas brancas, por exemplo, é o decano do grupo. Seu nome é Charles Darwin e ele chegou ao Rio de Janeiro num navio chamado Beagle. Apaixonou-se pelas praias, pelas florestas e pelas mulatas, abandonou sua expedição científica e ficou. Quando querem provocá-lo, os outros integrantes da roda pedem “Conta aquela da evolução”. É uma teoria meio maluca do velho sobre a seleção natural na evolução das espécies. Se tivesse voltado para a Inglaterra e publicado sua teoria ela teria causado uma revolução no pensamento humano. Mas sair do Rio e Janeiro nem pensar.

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Essa que está chegando, caminhando com dificuldade, é Sarah Bernhardt. Era uma atriz famosa quando veio se apresentar no Brasil. Aqui, teve um acidente no palco, machucou a perna, a perna foi maltratada no hospital e o resultado é que anda com uma perna mecânica. Ficou no Rio e acabou como assistente de figurinista da Globo, onde todos a chamam de “Madame Sarrá”.

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Essa figura que acaba de sentar-se entre Darwin e Sarah é interessantíssima. Romeno ou coisa parecida. Seu nome é Saul Steinberg. Desembarcou no Recife, foi para o Rio e, apesar de ter, como lhe diziam, “um traço meio esquisito” conseguiu emprego numa agência de publicidade e vendeu uns cartuns para a Cruzeiro. Quando a revista fechou, o Millôr ainda tentou ajudá-lo, mas Steinberg preferiu deixar, brasileiramente, para lá e arranjar um cargo público. O negócio dele é um chopinho e um bom papo.

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E há também os “professores” Fernand Braudel e Claude Lévi-Strauss. Os dois estão sempre de bermudas e sandálias. Braudel lecionou por um tempo na USP e escreveu alguns livros mal recebidos pela crítica acadêmica brasileira. Desanimou e foi para o Rio, onde leva uma vida tranquila, joga seu voleizinho de praia e não perde reunião do grupo. Lévi-Strauss veio ao Brasil fazer um curso de antropologia, casou-se com uma índia (“Que tetons”, diz ele até hoje, com saudade) e depois de viúvo se instalou num pequeno apartamento em Copacabana e se dedica à sua paixão secreta, ver novelas na TV. Sempre é o último a chegar, sob vaias dos outros, depois de ver as novelas das seis, das nove e das onze.

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E quem é esse que chega, irritado como sempre? É Orson Welles! Sim, o diretor de Cidadão Kane. Ele nunca mais saiu do Rio, depois que veio ao Brasil fazer um filme que nunca completou, na década de 40. E nunca mais fez um filme, apesar de estar em luta constante para conseguir financiamento. Ocupa-se em anarquizar os filmes dos outros. Mas hoje parece estar de bom humor. Senta e faz um sinal para o garçom:

– Ó gente boa, um chope e aquela linguicinha!

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