Um balé modelo exportação

Kirov demonstra decadência em estreia de temporada no Brasil

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2011 | 00h00

Começa pelo nome mantido na publicidade, para exportação, porque garante a bilheteria. Para a turnê brasileira, que começou na terça-feira, no Theatro Municipal de São Paulo, o "Kirov" foi mantido nos anúncios, sustentando, fora da Rússia, algo não mais possível lá. "Kirov" sustenta um vínculo com o comunismo e com a falecida União Soviética. Utilizado entre 1935 e 1992, o nome homenageava Sergey Kirov (1886-1934), um revolucionário bolchevique, líder do Partido Comunista da atual São Petersburgo, enquanto Mariinsky remete ao início histórico, quando o Tzar Alexandre II construiu, para a sua esposa, a imperatriz Maria Alexandrovna, o teatro que abriga hoje a companhia que se tornaria uma lenda no balé.

O "modelo exportação" se mantém na produção de O Lago dos Cisnes trazida para o Brasil, fazendo com que aquela que dançaram aqui em 1996 seja lembrada com saudade. Muito possivelmente, não seria com o elenco de agora e tampouco com um acompanhamento tão deficiente quanto o da Orquestra Sinfônica Municipal que o Mariinsky aceitaria enfrentar plateias mais familiarizadas com a tradição do balé. Não somente pelo seu questionável oportunismo em adicionar cisnes negros ao corpo de baile, pegando uma inadequada carona na popularidade do oscarizado filme de Darren Aronofsky (Cisne Negro), mas sobretudo pelo desempenho do seu renomado corpo de baile.

Obras do repertório clássico costumam fascinar a plateia com a altura das pernas dos bailarinos, a quantidade de piruetas e de saltos. Todavia, se tudo isso não for acompanhado da justa inflexão de movimentos da cabeça, da indispensável qualidade de uso dos braços e, sobretudo, do acabamento das terminações de cada passo... Bem, sem esse conjunto de atributos, a dança simplesmente não acontece. Ao longo dos desempenhos de tantos artistas extraordinários, um padrão foi sendo estabelecido, e não são muitos os que o atingem. O Mariinsky costuma respeitar esse padrão, mas não com um espetáculo como o que nos está oferecendo, no qual nem o canhão de luz sabe bem a quem deve focar.

A ausência dos seus habituais uníssonos impecáveis juntou-se ao tônus mal distribuído e ao excesso de força e de peso para configurar um desempenho escolar, como se assistíssemos a uma esforçada produção - inaceitável para uma companhia do seu porte, que esgota ingressos a R$400.

O fato de Danila Korsuntsev ser primeiro bailarino preocupa. Sem carisma e sem qualquer traço de domínio interpretativo, é prova de que a carência de estrelas masculinas, que já vinha atrapalhando a companhia, se acentua de forma ameaçadora. De príncipe, Danila não traz sequer o porte, restando-lhe apenas a altura.

Yekaterina Kondaurova, listada como primeira bailarina no programa, consta como primeira solista no site oficial (www.mariinsky.ru). Destaca-se mais pelos deméritos do conjunto do que por seus próprios atributos, pois ainda lhe falta tudo o que separa uma ótima solista (que ela é) de uma estrela: presença, magnetismo, habilidade para tonalizar adequadamente os papéis que desempenha (no caso, o dos dois cisnes).

A recepção calorosa do público sugere uma reflexão, neste mundo do consumo no qual vivemos. Parece que a aquisição do ingresso garante o aplauso. A imagem publicitária se sobrepõe ao que acontece, de fato, no palco, ao vivo, blindando a possibilidade de se lidar com o objeto que está ali, na nossa frente, e nele reconhecer qualquer tipo de deficiência. Seria como admitir uma falha nossa na aquisição daquele ingresso - o que, de forma alguma, não desejamos/podemos enfrentar. E se o sucesso está garantido, já se pode imaginar o que vai acontecer quando, no dia 7 de setembro, o Mariinsky apresentar o seu segundo programa, Gala, na Quinta da Boa Vista, gratuitamente.

KIROV BALLET

Teatro Municipal. Pça. Ramos de Azevedo, s/nº, 3397-0300. 5ª e 6ª, 21 h; sáb., 20 h; dom., 18 h. R$ 130/ R$ 390.

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