Um balé é perverso e pervertido

DANUBIO TORRES FIERRO

DANUBIO TORRES FIERRO É ESCRITOR, CRÍTICO LITERÁRIO, EDITOR DA FONDO , DE CULTURA ECONÓMICA NO BRASIL, O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2012 | 03h13

É fato sabido que a fundação do mundo político moderno, o que surge com a Revolução Francesa, coincide com o nascimento do romance moderno, um gênero que se tornou predominante porque canalizava uma questão central dessa época: o antagonismo crescente entre o individualismo e a sociedade. E nós, os moradores deste agora, individualistas contumazes que somos, é provável que nesse sentido de pertencimento sociológico e literário sejamos os últimos modernos, os remanescentes de uma majestosa artimanha da cultura que ao fim de dois milênios se resseca e se esgota. Quantas vezes, ao longo do tempo, ouvimos falar da profecia que anuncia a extinção do romance? Por acaso não percebemos, melancolicamente, que as próprias civilizações são mortais? O que importa, no entanto, é que ainda persiste, entre aquele século que se chamou da Ilustração, e nós, alguns vínculos efetivos, fortes, duradouros. Entre eles, precisamente um romance, Les Liaisons Dangereuses, escrito por Pierre-Ambroise Choderlos de Laclos, do qual a Penguin/Companhia das Letras acaba de editar uma nova e afortunada tradução - As Relações Perigosas -, a cargo de Dorothée de Bruchard, que deve ser bem-vinda (e se soma à de Carlos Drummond de Andrade, editada pela Globo, disponível em sebos).

É uma oportunidade única de revisar os laços que ainda nos unem a Laclos e a sua obra, e para tentar demonstrar que são ambos, apesar da distância secular que nos separa, nossos contemporâneos. Recordemos, antes de entrar no assunto, que o livro é um relato que se articula com base numa sequência sucessiva de cartas escritas por e entre os personagens que desfilam sobre um mesmo pano de fundo. São cartas que vão e vêm, que se provocam umas às outras e que umas às outras se completam e se correspondem. São cartas, também, que procuram enganar, ludibriar, excitar, seduzir, desafiar e ganhar tudo ou perder tudo em suas apostas; são cartas que borram as fronteiras entre a amizade e a inimizade, entre o amor e o ódio e que apontam, em todas e cada uma de suas argumentações, para manipular e submeter. O sistema que assim se estabelece - um sistema cíclico que funciona como uma roda enorme que tritura tudo que pisa - pauta dramaticamente a narrativa e atua como um princípio diretor que se atualiza dinamicamente em cada novo momento. Não há pausa nem descanso nesse movimento que se enrosca e se retroalimenta, e acaba por se aniquilar.

Várias versões cinematográficas distribuídas ao longo do tempo (as de Roger Vadim, Milos Forman e Stephen Frears, mais outras de Roger Kumble e de Lee Je Young) e teatrais tentaram comprovar nossa proximidade com o texto de Laclos com resultados desiguais. O que interessa é, de uma forma ou de outra, os espectadores desses filmes termos reconhecido neles, nessas adaptações que por sua extensa difusão mundial nos ajudaram a nos aproximar da obra, termos reconhecido, entre os deslocamento das câmeras e as máscaras dos figurantes, uma dança e contradança de olhares, gestos e ademanes que se assediam e se entrelaçam, uma coreografia animada ora por argúcias de raras delicadezas, ora por chicotadas com estrondos fulminantes, uma situação enganosa de comédia que, à medida que avança e se desenvolve, mais se avizinha do infortúnio da tragédia. Teremos reconhecido, então, a colocação em cena de um código que nos é habitual, comum, consuetudinário. O código que nós, homens e mulheres deste mundo, ensaiamos dia a dia na dinâmica de nossas relações, o espetáculo da sedução - amorosa por sexual, sexual por amorosa - como cerimonial que expressa o imperialismo do desejo humano cunhado no duplo eixo do poder como patologia ávida dos corpos e do dinheiro como sangue que irriga esses corpos. Como não descobrir um retrato nosso nestas geografias febris e ao mesmo tempo tão prenhes de gélidos cálculos egoístas?

O que Choderlos de Laclos plasmou com sabedoria são nada mais nada menos que as evoluções desse balé perverso - e pervertido - que quer expor sem hipocrisias nem dissimulações o apetite humano pela posse e o controle, pela tirania e a rendição. Ele, Laclos, foi um oficial do Exército francês em tediosos tempos de paz, um polemista largado em fortalezas espalhadas por lugares remotos no momento em que se procedia a fixação das fronteiras nacionais, um profissional obediente da disciplina burocrática e um técnico em artilharias que inventou a arma chamada obus. Preso em duas ocasiões sob o império do Terror revolucionário, Laclos foi indultado por Napoleão, que lhe devolveu seu posto na hierarquia militar e o restituiu a um Exército no qual vegetaria até morrer. Ele estava tão convencido dos alcances futuros de seu romance, que se atreveu a escrever que "resolvi escrever uma obra que fugisse dos caminhos batidos, desse o que falar e ainda repercutisse sobre a terra depois de eu já estar embaixo dela". A obra deu o que falar desde sua primeira aparição: foi retirada de circulação pela censura. Aliás, o primeiro a perceber a façanha de Laclos foi Charles Baudelaire, que num francês lapidar resumiu com clarividência: "Ce livre assemble... l'amour de la guerre et la guerre de l'amour" ("Esse livro reúne... o amor da guerra e a guerra do amor"). De fato, pois o general transferiu para sua literatura de verdugo as artes da milícia: tanto a marquesa de Merteuil como o visconde de Valmont, personagens principais que assumem com ciência e consciência seus papéis de legionários impávidos, levam adiante com tática gélida e rigorosa uma campanha de extermínio como auxiliares obscenos do Mal entre os que são seus comparsas. Porque o Mal é, sem dúvida, a potência que governa furibunda o livro e que, ao ser entendido como um traço constitutivo de todos nós, consegue nos comprometer e nos tocar num ponto sensível de nossa pessoa. Essa capacidade para nos morder é, sem dúvida, uma das razões que faz com que nos reconheçamos no livro, que nos comprometamos com ele e com suas irradiações.

Já se falou que As Relações Perigosas é uma expressão de libertinagem e do excesso de ânimo de conquista (de assédio, submissão e triunfo sobre o outro) como condutas que se voltam maliciosamente contra si mesmas. É uma leitura pertinente, legitimada, nessa época, por obras de temas e fundos afins como As Bodas de Figaro e O Barbeiro de Sevilha. Mas é uma leitura parcial. É evidente que no livro existem a unhada da luxúria, a fuga para diante que contempla os voluptuosos, o erotismo insone que devasta e, suicida, morde a própria cauda. As confidências que os personagens nos sussurram através da intimidade subterrânea das cartas (método supremo de antagonismo da réplica e contrarréplica e do uso habitual, diga-se de passagem, da literatura do momento), e a cristalização psicológica de suas mentalidades que ali emerge em relevo, nos reiteram disso. O pacto privado que estabelecemos com esses personagens se configura por uma pragmática do testemunho literário entendido como expressão da sinceridade moderna, como consciência da presença do leitor enquanto cúmplice ativo ao qual se quer, por um lado, hipnotizar com as destrezas da ideologia romanesca e, por outro, despertar com o nervo da ironia. É precisamente aí que se descobre o recurso novíssimo, e de feição muito sutil, que nos leva a sentir com intensidade alguns personagens tão parecidos conosco em suas estratégias, tão de nossa mesma raça em seus triunfos e em suas derrotas. O tríptico que conformam autor, obra e leitor se constitui, mediante o olhar crítico interativo, um trio de semelhantes e irmãos, de enturmados filhos de vizinhos. "Rien de mieux - chega a apontar com graça inédita a marquesa na versão original - et vous figurerez a merveille dans um Roman." Ninguém até então havia se atrevido a argumentar com tamanha desenvoltura, e, sobretudo, com um tom tão moderno, a comunhão com a literatura de um personagem de ficção que queria ser parte das entrelinhas que o desenham e sustentam.

No entanto, é imprescindível dar um passo a mais na análise para reparar que o selo moderno do autor e da obra provém de nascentes mais absolutas. Com efeito, criado na filosofia otimista das Luzes, Laclos busca suas fontes inspiradoras não em seus contemporâneos estritos, nem em seus antecessores mais próximos, mas viajando para trás, até os destruidores de aparências, até os moralistas amargos e sem ilusões sobre a natureza humana, até os memorialistas desalentados que se chamaram La Rochefoucauld, o cardeal de Retz e o conde de Saint-Simon. Eles sabiam, de o haver observado no microcosmo revelador da corte monárquica dos Luíses, que a conduta dos homens é guiada pelo embate e a luta, pela ânsia de ferir e abater ao outro e que o desejo tirânico - de novo, amoroso por sexual, sexual por amoroso - é ali uma doutrina que em tudo penetra e estraga como se tratasse de um veneno poderoso. De mais a mais, eles sabiam que, em tais contextos, a figura hegemônica é o Mal (e a sombra da morte, que é, não se deve esquecer, seu correlato inerente), uma figura que airosa serpenteia aqui e ali, igualmente implacável entre os supostamente inocentes e os decididamente malévolos, entre os trêmulos cândidos e os orgulhosos astutos, entre vítimas e assassinos. Daí que, no espírito pedagógico esperançoso que foi o cunho fundamental do século 19, As Relações Perigosas apareçam como a revelação de um positivo que segue um negativo, a contracorrente de um movimento que flui majoritário em uma única direção. E algo mais que merece ser precisado: a obra é uma espécie de canto de cisne, de obituário de uma época que de imediato, e por uma reviravolta histórica, deixará para trás os hábitos (os vícios) da aristocracia, nos quais por rancor de casta ou por artifício de raciocínio Laclos se concentra, e abrirá caminho para a invasão de novos bárbaros. Os novos bárbaros, sim: essa burguesia mimética que então nascia, que se consagraria com a Revolução Francesa e que nós hoje encarnamos (ainda?). Temperamento arredio a qualquer forma de opressão, e espécime libertário avant la lettre, o general Laclos, ao escrever As Relações Perigosas, vislumbrava um futuro de unanimidades fátuas nos arrebatamentos do individualismo que, impetuoso, começava a abrir caminho.

Nós, os residentes deste século, sabemos, porque assim nos ensinou a tradição cultural, que a prova suprema para um livro consiste em termos de sentir que, por trás de suas palavras, cintila uma inteligência excepcional, invulnerável à erosão do tempo. Tal é o fenômeno que avistamos em As Relações Perigosas. O general Laclos estava certo: sua obra estava fadada a repercutir quando ele já estivesse enterrado. Trata-se de um romance que, no arco histórico da literatura, lembra muito aquelas joias antigas das quais se sussurra em velhas famílias patrícias que com seu brilho pecaminoso são portadoras da desgraça. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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