Um balanço do rumoroso ano 2000

Não foi particularmente glorioso este 50.º ano da TV, que se encerra dentro de dias. A própria relevância da efeméride - reluzentes bodas de ouro, para um casamento estável e feliz da TV com seu público - evidenciou a mediocridade da programação atual, no contraste com os inúmeros sucessos do passado que foram evocados em especiais, exposições, artigos de imprensa e livros. O que, de fato, na produção oferecida hoje, resistiria à comparação com marcos de qualidade como TV de Vanguarda e TV de Comédia (Tupi, anos 50), Noite de Gala (TV Rio, virada dos 50 para 60), Família Trapo (Record, anos 60) ou novelas como Gabriela, O Casarão, Roque Santeiro (Globo, anos 70/80)? Nada do que está no ar, ao menos na TV aberta, supera ou se iguala ao que ela mesma realizou, nos 50 anos agora concluídos. Essa constatação não impede, entretanto, que se reconheça o que houve de positivo neste ano e se dê o devido crédito a quem se destacou, ou sobreviveu, na selvagem competição entre as emissoras, que se trava num mercado em plena instabilidade e mutação. Bons programas apareceram, sem dúvida, e vários nomes estiveram em evidência, alguns pelo mérito de seu trabalho, outros nem tanto. Novatos, sobretudo, conquistaram espaços importantes, vencendo as habituais reticências que todas as estações demonstram, quando se trata de arriscar horários importantes com experimentos de programação. No telejornalismo, que viveu ano de relativa irrelevância, quem despontou e segurou as pontas foi Ana Paula Padrão. Designada substituta de Lilian Witte Fibe no Jornal da Globo, excursionou antes em cobertura pelo Afeganistão e trouxe de lá uma excelente série de reportagens, ombreada só pelo documentário Timor Lorosae - O Nascimento de Uma Nação, que Paulo Markun realizou para a Cultura. Na bancada do noticiário da Globo, mostrou-se segura e competente, assegurando a posse daquele disputado espaço. Na área de shows, Otaviano Costa também demonstrou competência, na difícil tarefa de pegar um programa alheio, personalizado desde o nome, e convertê-lo à sua imagem e semelhança, alterando inclusive o título sem maiores instabilidades. É claro que O Superpositivo oferece pouco mais do que erotismo "light" para a adolescência, nos contornos corporais da Feiticeira, Internética, Gêmeos e dos astros e estrelas da MPB rebolativa. Mas o apresentador estabilizou-se no horário nobre de uma rede nacional, o que não é proeza pouca. Como logrou, também, Adriane Galisteu, ao elevar a audiência da Rede TV! e, depois, trocá-la pela Record, numa transação rumorosa, certa de seu poder de carregar consigo a fidelidade do público. Na dramaturgia, destacou-se Carlos Lombardi, com a insólita Uga Uga, demonstrando verdadeira maestria em trabalhar uma linguagem "jovem", baseada nos quadrinhos, e fazê-la compreensível e apreciada pelo público mais maduro. O mesmo foi tentado antes, até pelo próprio Lombardi, mas só agora os seus galãs descamisados e suas heroínas louquinhas encontraram aclamação universal. Cabe ressalvar, entretanto, que ainda virá, nesta semana, a série Brava Gente, sob a batuta geral de Guel Arraes, mestre de seu ofício. Logo, apesar de ser a última semana de 2000, pode ser prematuro eleger agora o melhor produto do ano em dramaturgia. Outros títulos e artistas poderiam ser citados, como Manoel Carlos e sua Laços de Família, novela vigorosa, cujo sucesso em si a qualifica. Mas, nesse caso particular, o que se destaca são mais as contingências do que o conteúdo. O debate público em torno da "licenciosidade" da trama e da "censura" a que foi submetida - que envolveu o Ministério da Justiça, o Ministério Público, o Poder Judiciário, a Igreja Católica, grupos de pressão pela qualificação da TV, a mídia e outros setores -, foi, certamente, o maior avanço da TV brasileira no ano. De repente, o Brasil descobriu que não só pode, mas deve debater a TV, e é responsabilidade sua zelar pelo patrimônio coletivo que ela representa. Que esse espírito tenha reprise doravante, em 2001 e no milênio que se inicia.

Agencia Estado,

24 de dezembro de 2000 | 18h24

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