João M. Meirelles/Divulgação
João M. Meirelles/Divulgação

Um balaio sadio

Em sua décima edição, Mercado Cultural funciona pela louvável diversidade

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2010 | 00h00

Depois de passar pelos municípios de Ibirataia, Dario Meira, Valentim, Boa Nova e Vitória da Conquista, na Bahia, em etapa da Caravana Cultural - de 26 de novembro ao dia 1º de dezembro -, terminou ontem, em Salvador, a 10.ª edição do Mercado Cultural. A programação do evento na capital baiana foi encerrada no Teatro Castro Alves com um show antológico de Egberto Gismonti. O multi-instrumentista e compositor carioca, recebido pelo auditório lotado ao coro de Parabéns a Você (em comemoração aos 63 anos completados pelo músico no domingo), apresentou-se ao lado da Orquestra de Sopros Pró Arte.

Ao lado do grupo, formado por jovens com idade entre 17 e 25 anos, Gismonti foi ovacionado pela plateia em 1h30 de espetáculo. Tocando piano e violão de 10 cordas, com domínio completo sobre os instrumentos, o que se viu anteontem no Castro Alves foi um Gismonti leve, se divertindo ao reger a orquestra em seus temas famosos, como Palhaço, Maracatu e Frevo, grande destaque da noite.

A décima edição do evento, além de dar uma aula de organização, deixou também o exemplo para todos os festivais brasileiros de como se montar uma grade de programação interessante. A receita foi simples: ter como norte a diversidade cultural entre as atrações, revelando ao público - sempre em apresentações gratuitas -, grupos de cultura regional da própria Bahia, de outros Estados brasileiros e conjuntos internacionais alheios ao mainstream.

"Nós assumimos muitos riscos no Mercado Cultural. Poderíamos optar por trazer algum grande nome que garantisse o sucesso da bilheteria do evento só para encher a casa, mas não é a nossa proposta. A intenção é poder trazer gente nova que as pessoas não conheçam e formar público; isso leva um tempo", diz o pianista e compositor Benjamin Taubkin, que atua como curador do festival desde 2001.

O discurso do curador poderia ser apenas artifício retórico, mas funcionou na prática do primeiro ao último dia. Exemplo claro disso ocorreu anteontem quando as pessoas puderam abrir os ouvidos em uma mesma noite para receber a moderníssima música brasileira de Gismonti e, antes, as composições mântricas e tradicionais dos africanos do grupo Oudaden, do Marrocos.

O Mercado foi mesmo um grande balaio saudável de culturas musicais. No primeiro dia, ainda morno, a bonita diferença entre a Fanfarra Municipal de Ibirataia, o grupo percussivo espanhol Coetus (que, ainda como parte da programação do evento, toca em São Paulo amanhã, no Centro da Cultura Judaica), as belas composições da cantora de Cabo Verde Carmen Souza, além dos shows no teatro Solar Boa Vista, com a quentura da banda Komanti, da Guiana Francesa, e o DJ Camilo Fróes.

Letras. Em termos de novidades nacionais, o segundo dia foi disparadamente o melhor do festival, com as apresentações marcantes dos baianos do Sanbone Pagode Orquestra, liderado por Hugo Sanbone, e da Orquestra Afro Sinfônica, capitaneada por Ubiratan Marques, ambos os grupos seguindo os rastros de trabalhos deixados no passado por Moacir Santos e, hoje, pelo Rumpilezz. Saindo do campo do instrumental e entrando na seara de temas com letras, os cearenses do Breculê, com faixas de seu primeiro disco, Vidas Volantes, provaram que ainda vão longe. A sexta também contou com o show solo do carismático austríaco Matthias Loibner, com seu exótico instrumento Hurdy Gurdy, conhecido aqui como Viola de Roda.

No sábado, o caldeirão étnico continuou pegando fogo ao misturar o Terno de Reis Raiz do Umbuzeiro com Baiana System, a mineira Titane (única bola fora da programação) e os coreanos do Geomungo Factory e do Noreum Machi. A principal atração da noite partiu de São Paulo, com a emocionada Tulipa Ruiz. O show foi uma surpresa. Não no que diz respeito ao talento de Tulipa, mas pela entrega da plateia, que sabia de cor muitas letras do disco Efêmera.

Depois dela ainda houve tempo para o DJ Tudo e sua Gente de Todo Lugar fazer um show animado e tentar evitar a dispersão do público, já invadindo a madrugada.

Além dos espetáculos, o mais importante deixado pela décima edição do Mercado Cultural foi mesmo a opção por arriscar com as novidades escondidas do Brasil e do exterior, que sempre tangenciam o eixo Rio-São Paulo. E não foram só os shows que se mostraram importantes nesse movimento de descobrir talentos, mas também os workshops realizados e as diversas conferências organizadas para pensar o cenário musical de hoje, seus rumos e tendências.

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