Um balaio de sons sortidos

Meretrio lança disco com naipe de sopros, mostrando a cara de uma nova geração que acredita na força da música instrumental

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2010 | 00h00

Meretrio. Lançamento de disco com naipe de sopros, mostrando a cara de uma nova geração. Foto: Paulo Liebert/AE

A idade é pouca, na casa dos 25 anos, mas há tempos eles se dão para todos os gêneros musicais sem o mínimo de pudor. Do heavy metal ao baião, da lambada ao jazz, do frevo à valsa. O que caracteriza o Meretrio é uma verdadeira e saudável promiscuidade sonora. Por isso, lançando hoje seu segundo disco, batizado de Projeto Meretrio, no Teatro da Vila, o grupo vem arrancando elogios de nomes respeitados no Brasil e é exemplo para os pares de sua geração de como fazer música instrumental autêntica e extremamente moderna.

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Áudio: ouça trecho da faixa A Dança Proibida

 

Amigos. O balaio sonoro do Meretrio não fervilha apenas no que diz respeito ao passeio elegante e natural que eles fazem pelos gêneros musicais nacionais e estrangeiros, mas também no tipo de formação instrumental e em relação aos diferentes amigos com quem eles se misturam para tocar novos projetos. Exemplos disso são os registros que o trio vem fazendo, como o belo disco Na Cozinha, em que eles tocam com o pianista Pedro Assad, amigo de faculdade. Jovens que ainda têm muito a aprender e a palmilhar na carreira? Sem dúvida, descobertas e aprendizados são infinitos quando se trata de música, mas temas como Fantasia do Caos, Anel de Zebu, Mereless, Piquenique, Esquisofrenética e Os Sobrinhos Habbabs, com uma melodia que deveria ser emoldurada de tão bela, anunciam que a maioridade artística desses jovens músicos é um caminho inevitavelmente sem volta.  

 

Com um vasto horizonte pela frente, o Meretrio nos serve um caldeirão cheio de ideias e impossível de ser rotulado, e não há como afirmar que é um grupo de jazz ou de música brasileira apenas. Eles são uma miscelânea na medida certa de diversas influências, como Moacir Santos, Charles Mingus, Maria Schneider Orchestra, Gil Evans, Pat Metheny, entre tantos outros. "A gente não segue uma vertente tradicional do jazz. Se você for em casa, eu tenho milhares de discos de pianista, saxofonista, trombonista, baterista, não tenho quase nenhum de guitarrista. A gente ouve muita coisa diferente, tem coisa pouco conhecida aqui no Brasil, como a Vienna Art Orchestra, moderna, de que a gente gosta muito", diz Emiliano.  

 

Com a cabeça aberta, o grupo tem a possibilidade de explorar novos arranjos e sonoridades que a formação inicial não permitia. Na companhia de um naipe de sopros formado por seis músicos, o trio se transformou em um noneto, ganhando o nome de Projeto Meretrio. O álbum da big band consegue aliar a sonoridade cheia dos metais preservando a essência do trio: a bateria versátil e respeitável de Gigante, as melodiosas linhas e improvisos de um baixo que parece cantar, de Gustavo, a guitarra sem firulas e as composições e arranjos inventivos de Emiliano.

 

Gravado e mixado novamente por Mario Porto, desta vez em um estúdio maior, que comportasse todos os instrumentistas, o álbum tem uma unidade coerente, mesmo trazendo nove temas bem diferentes entre si.  

 

Faixas como Merewelcome, Meresopros, De Jazz em Jazz e Pé na Fusão empolgam, mas a coisa esquenta mesmo com Miedo del Oscuro, "brincadeira" fabulosa inspirada em Fear of the Dark, do Iron Maiden, e com A Dança Proibida, uma lambada instrumental que lembra a pegada rítmica e o veneno das melodias de Moacir Santos, fazendo uma referência ao filme típico de Sessão da Tarde, Lambada - A Dança Proibida, de Greydon Clark.  

 

Para o show de hoje, eles prometem, obviamente, tocar os temas deste disco, mas também mostrarão novas composições, entre elas Meresurf e Merefunk, que entrarão no próximo álbum. "Este disco com o noneto encerra um ciclo, mais da metade das músicas do show já é de novidades. A resposta do público tem sido ótima", diz Emiliano.

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