Um baixista técnico, sem preconceitos e com alma de sobra

William Parker é um baixista muito peculiar. Em vez de perseguir melodias e mostrar suas habilidades em intrincados motivos melódicos, ele prefere se concentrar no ritmo, criar texturas e grooves tão poderosos. Isso faz com que, forçosamente, ele se transforme numa espécie de motor, o ponto que distribui energia para a banda.

Guilherme Werneck, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2011 | 00h00

Embora seja nascido e criado no ambiente do free jazz, a maneira como encara o contrabaixo - com uma técnica impecável, tocando com ou sem arco -, faz com que ele consiga se espalhar por um espectro musical muito mais amplo e cheio de alma, e consiga encaixar seu som no hip hop, propor fusões com a música oriental e até tocar com bandas de rock como Yo La Tengo.

No começo de carreira, Parker aprendeu a tocar com a nata do free. Seu mais famoso professor foi Jimmy Garrison, baixista do quarteto clássico de John Coltrane.

Descrito como um catalisador da cena do Lower East Side a partir dos anos 70, Parker aparece para valer nos anos 80, como parte do trio de Cecil Taylor, o pianista que, ao lado de Coltrane e de Ornette Coleman, forma a santíssima trindade do jazz moderno. Em dupla com o baterista Tony Oxley, Parker faz a cama perfeita, liberando Taylor para criar seus arabescos cubistas.

Não à toa, nos últimos anos, Parker encontrou em um discípulo de Taylor, Matthew Shipp, um de seus pares perfeitos. Além de tocar com Shipp em diversas formações, os discos em que só os dois tocam equilibram cérebro e alma. Parker fica com a parte dos espíritos.

A aproximação com Shipp, curador da Blue Series Continuum para o selo Thirsty Ear, ampliou muito o alcance da música de Parker. Em discos da série, ele toca, entre outros, com o rapper El-P, em High Water, com o DJ Spooky em Optometry e Dubtometry, e, mais tarde, com Beans, do Antipop Consortium.

Parcerias com dois outros músicos renderam grandes discos nos últimos anos. A primeira é com o percussionista Hamid Drake. As improvisações the Piercing the Veil mostram como uma boa cozinha pode chegar à sala, usando ritmo e surpresa. A segunda é com a contrabaixista francesa Joëelle Léandre. Nos discos que os dois lançaram juntos, há um balanço entre técnica clássica e improvisação que faz com que o som sempre encontre caminhos inesperados.

Ter a mente aberta é sua principal qualidade. E faz com que consiga ir das improvisações mais ousadas a discos que mesclam free jazz com soul e R&B, como os projetos com a cantora Leena Conquest. É essa sensibilidade eclética que ele deve mostrar agora em São Paulo.

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