Um baiano na Avenida São João

Juca Ferreira diz que teve "azar" com verba baixa, mas confia que o prefeito ajude a chegar a 2% do orçamento de SP

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

02 Fevereiro 2013 | 02h07

Juca Ferreira saiu do Ministério da Cultura com um orçamento de mais de R$ 2 bilhões e, dois anos depois, assume a Secretaria Municipal de Cultura com um orçamento bem mais modesto: pouco mais de R$ 400 milhões, menos de 1% do total da cidade. Ele lembra manifestação pública do prefeito Fernando Haddad de elevar esse montante para 2% do orçamento municipal e está esperançoso nessa decisão - sua primeira reunião com o prefeito será apenas esta semana.

Mas a realidade nova é de um orçamento exíguo, que ele pretende incrementar com parcerias. Está tentando, com o governo do Estado, harmonizar as atrações e as datas da Virada Cultural 2013, para que as duas viradas (a estadual e a municipal) possam ser feitas com menos recursos e mais sincronicidade.

Quais são as suas primeiras ideias para o dinamismo cultural da cidade de São Paulo?

Vamos tentar políticas novas, que nunca foram pensadas em nenhuma parte do mundo. Por exemplo: uma política cultural para a noite. São Paulo tem uma identidade muito ligada ao trabalho, e ao trabalho visto a partir da ótica dos donos dos meios de produção. Dormir cedo para no dia seguinte ir trabalhar cedo. Ao mesmo tempo, tem a maior noite do mundo. Na minha despedida em Madri, dois diplomatas que servem em Nova York me disseram que uma moda nova entre nova-iorquinos é vir para cá nos feriados prolongados curtir a noite e a diversidade gastronômica de São Paulo. A cidade tem um potencial que pode ser desenvolvido nessas áreas: a noite, a culinária, a música, os espetáculos. A Virada é um sucesso a que eu pretendo dar continuidade. Ela não é elitista, permite que a cidade viva uma realidade que as cidades brasileiras que têm praia já vivem, que é a possibilidade de estar no mesmo lugar o pobre, o rico, o cara da periferia, o de poder aquisitivo maior.

A questão do Cine Belas Artes entra na sua lista de prioridades?

Já entrou. É do nosso interesse. Não sei se será necessária a desapropriação, mas nos adiantamos e o Iphan mandou fazer, pela Caixa Econômica Federal, a avaliação do imóvel. Estamos trabalhando juntos. Estou atendendo uma demanda da cidade, este é um patrimônio afetivo da cidade. Há outros cinemas de rua, alguns estão em processo de tombamento, outros já foram tombados. Eu acho o seguinte: existe uma leitura menos generosa, com a qual eu não concordo, de que precisamos investir na periferia e esquecer o centro. Precisamos levar os serviços públicos e incorporar plenamente a periferia. Mas o centro da cidade é um local importante em qualquer cidade do mundo. As cidades brasileiras deixaram degradar o seu centro..

São Paulo tem um mercado de show biz que é atualmente o maior da América Latina. Mas se queixa de não ter estrutura suficiente para abrigar esses shows. É preciso estar atento para essa questão dos grandes espetáculos. Acho que a vocação de São Paulo não é só importar espetáculos da indústria cultural mundial: Madonna, Lady Gaga, essas coisas. Primeiro, é uma cidade que tem o que mostrar, que produz seus próprios espetáculos. E é parte do Brasil, pode polarizar o que há de música, cinema, teatro. Tem a Mostra de Cinema de São Paulo, que é importantíssima. A gente pode ajudar que essa mostra cresça ainda mais. O poder público pode criar linhas de financiamento, como em outras áreas, para desenvolver essas atividades. A moda, por exemplo, não é só o evento, é uma indústria. O cinema paulistano pode receber aportes. Formar gestores, técnicos, artísticos. E estimular mais que as atividades se relacionem com as bilheterias, seja no cinema, seja no teatro. Levar as pessoas às salas. Ficaram muito insignificantes as plateias, e você acaba perdendo o vínculo entre a arte e o seu público. No momento, São Paulo está se apaixonando por São Paulo. As pessoas estão descobrindo a cidade, não só as pessoas daqui como as de fora. Eu dei um azar, que é ter um orçamento menor em cerca de uma década.

O senhor acredita na

cooperação entre o Estado e a prefeitura nessa sua caminhada?

A gente deve compreender que a cultura não pode ser utilizada como um instrumento da luta político-partidária. Seu significado deve ser jogado para a cota de consenso da sociedade. E eu tenho uma excelente relação com o Marcelo Araujo (secretário de Estado da Cultura). Já fui visitá-lo, concordamos em dar um tratamento especial ao Cine Belas Artes, ele gostou de minhas ideias sobre o carnaval, achou boas também as possibilidades de parceria. Se eu fechar cooperações com o governo estadual, federal e com a área privada, os grandes institutos, tenho condições de fazer uma boa gestão.

O senhor vai trocar gestores, como por exemplo a direção do Centro Cultural São Paulo?

A gente não decidiu isso. Minha tendência é manter a direção. A gente tem avaliado, o trabalho é positivo, mas cada equipamento será revisitado, tentaremos ampliar seus significados, mesmo os que têm uma qualidade. Ali tem a guarda de partituras de música, houve investimento na melhoria do prédio. Tem ainda dois ou três probleminhas, vazamentos de som de uma área para outra. Mas queremos ampliar. Foi um equipamento cultural muito importante para a formação de muitos jovens.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.