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Um autor que disseca a ética na política

Em 4 obras dos anos 1960, Preminger põe o dedo nas feridas dos EUA

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2011 | 00h00

Autor do melhor livro sobre a vida e obra de Otto Preminger - The World and Its Double -, Chris Fujiwara faz uma afirmação à qual vale voltar, agora que Tempestade Sobre Washington está saindo em DVD pela Cult Classics. O crítico e historiador observa que Preminger permanece no imaginário dos cinéfilos por seus clássicos noir, como Laura (claro) a Bunny Lake Desapareceu, passando por Alma em Pânico, ou então é lembrado pelas batalhas com a censura de Hollywood para impor o realismo social de obras como O Homem do Braço de Ouro e Anatomia de Um Crime. Preminger também realizou musicais e um western, mas quem quiser se debruçar seriamente sobre o autor precisará se concentrar no bloco de quatro filmes dos anos 1960.

Exodus, Tempestade Sobre Washington, O Cardeal e A Primeira Vitória formam mais que esse bloco de sólida coerência estética e política. São os filmes que expõem o credo premingeriano. De tanto invocar a Suprema Corte em sua guerra pela liberdade de expressão no cinema americano, Preminger se apercebeu do valor das instituições no sistema democrático. É, por excelência, o autor que disseca o funcionamento da democracia.

Ele comprou os direitos do livro Advise & Consent em 1959. O autor era Allen Drury, um republicano conservador, e Preminger logo fez saber que iria limpar o livro do seu reacionarismo, mas não pretendia fixar uma posição política, no sentido de partidária. Para o produtor e diretor, o tema de Tempestade Sobre Washington não é propriamente a política, embora se passe, em boa medida, nos meandros do Congresso dos EUA. O tema de seu filme, dizia Preminger, é a ética. É, por isso, que passado tanto tempo - estreou em 1962 -, Tempestade permanece tão vivo.    

 

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O ponto central da narrativa é o processo de validação, pelo Congresso, do nome secretário de Estado, anunciado pelo presidente. Henry Fonda desperta polêmica porque anuncia o início do diálogo com a União Soviética - o anticomunismo ainda era tão forte, na época, que Preminger, por Exodus, e Kirk Douglas, produtor de Spartacus, compraram uma briga para impor o roteirista Dalton Trumbo, que estava na lista negra. As investigações dos congressistas levantam a suspeita de que Fonda, o personagem, teria tido ligações com o Partido Comunista. Para desviar a atenção, um de seus apoiadores pressiona um integrante da comissão do Senado que avaliza a homologação do secretário, ameaçando-o com um escândalo - a revelação de um episódio de homossexualismo em sua juventude.

O jogo de pressões e escolhas éticas é poderoso. Como se não bastasse a polêmica do "comunismo", essencial na trama, Preminger incluiu na agenda outro tema polêmico - até hoje - no cinemão, o homossexualismo. Só para lembrar, um dos momentos fortes de Exodus, que o diretor realizava enquanto orientava o roteiro de Tempestade Sobre Washington, é justamente aquele em que o personagem de Sal Mineo revela que foi abusado sexualmente, usado como mulher.

Como produtor, Preminger foi sempre um marqueteiro hábil, que transformou a própria luta pela liberdade de expressão em valor de mercado. Em Tempestade, ele ainda tentou incrementar o que já produzia encrenca. Convidou Martin Luther King para fazer um político sulista, o que imediatamente provocou protestos da racista representação republicana do Sul. O próprio King pôs fim ao episódio, declinando da oferta e acrescentando que participar do filme não faria avançar a luta por direitos civis.

Com Exodus, em 1960, Preminger descobriu o formato Panavision. A tela larga revelou-se fundamental para seus grandes afrescos políticos e ele continuou a usá-la através de Tempestade, O Cardeal e A Primeira Vitória. Convencido de que, para falar sobre a democracia, não deveria impor conceitos ao público, Preminger desenvolveu, nos quatro filmes, uma espécie de escritura branca - sua mise-en-scène consiste em fornecer elementos de informação e convencimento, mas de tal forma que o espectador se sinta livre para formar as próprias ideias.

Como informava o autor, o tema de seu filme é a ética, mas em relação aos demais títulos da tetralogia, compartilha o embate dentre o indivíduo e as instituições como motor dramatúrgico. Não por acaso, há um suicídio em Tempestade e o assunto que obcecava Albert Camus - a única verdadeira questão moral, como ele dizia - voltou em O Cardeal e A Primeira Vitória. O elenco de grandes nomes masculinos - Henry Fonda, Charles Laughton, Walter Pidgeon, Burgess Meredith, etc. - contribui para dar representatividade ao Congresso. Preminger formou-se no teatro (com Max Reinhardt) e foi ator, inclusive de Billy Wilder em Inferno 17.

Ator. Ele sempre valorizou a arte do ator. Dizia que seu método se assentava sobre o tripé história, atores e câmera. As cenas no bar gay provocaram sensação. Abriram uma porta - um armário? - que outro filme mesclando política e homossexualismo também afrontaria/enfrentaria, a seguir - Vassalos da Ambição, que Franklin J. Schaffner adaptou da peça de Gore Vidal. Coincidentemente, também com Henry Fonda. O pai da passionária Jane foi um progressista de carteirinha.

TEMPESTADE SOBRE WASHINGTON

Direção: Otto Preminger (EUA/ 1962, 139 minutos). Elenco: Henry Fonda, Charles Laughton. Distribuidora: Cult Classic. Preço: 29,90.

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