Um ator e seus muitos caminhos

Edson Celulari traz a São Paulo um exame intimista sobre a morte, a memória e os sonhos

GUILHERME CONTE, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2012 | 03h08

"Esta é a peça com o menor elenco em que já trabalhei." Quem se diverte contando é um animado Edson Celulari. De fato, o jovem Pedro Garcia Netto é sua única companhia em Nem Um Dia se Passa Sem Notícias Suas, de Daniela Pereira de Carvalho, que estreia hoje no Teatro Cultura Artística Itaim.

A peça investiga uma questão que não poderia ser mais universal: a morte. Celulari vive Joaquim, médico bem-sucedido na casa dos 50 anos, que se vê às voltas com a morte do pai. Ele tem de lidar com o triste e duro processo de organizar a vida para prosseguir. É preciso limpar as gavetas, ver o que será guardado, o que será doado, o que será descartado. Em sua companhia está Juliano, o irmão caçula, vivido por Netto. É quando uma revelação surpreendente se dá.

"Este é um texto intimista, delicado e extremamente bem escrito", avalia Celulari. "É um espetáculo que tem uma imensa capacidade de dialogar com o público. A morte é um acontecimento pelo qual todos nós passamos, mais cedo ou mais tarde - lidar com a perda, as memórias e os anseios."

Já faz algum tempo que Celulari tem completa liberdade para escolher os trabalhos em que se envolve. E, neste caso, a escolha revela mais do que pode aparentar à primeira vista. Basta lembrar que sua última aparição no palco foi o multicolorido musical Hairspray - no qual interpretava a loura e esfuziante Edna Turnblad. Era um papel para soltar a voz e os quadris.

Muitos e diferentes. Em Nem Um Dia..., no entanto, a chave de interpretação está em um registro bem diferente. "O maior barato da profissão de ator está exatamente aí, em poder ser muitos, em explorar exercícios tão diferentes entre si." Dono de sólida carreira televisiva, pela qual se diz feliz e agradecido, ele explica que é no teatro onde realmente encontra terreno para experimentar os diversos caminhos e possibilidades do ofício. "Foi no palco que sempre me encontrei como ator."

O processo de criação de Nem Um Dia..., particularmente, veio ao encontro dessas aspirações. "Nós fomos lendo o texto à medida que ele era escrito", conta. "Chegavam algumas páginas, líamos, discutíamos, fazíamos sugestões, ele voltava à autora. Depois chegavam outras, repetíamos o procedimento, e assim o espetáculo foi sendo construído."

Ele também revela que houve um desejo deliberado de trabalhar com uma dramaturga nova e brasileira. "Há novos textos florescendo. A Daniela é uma dramaturga de grande talento, com um olhar sensível. Esses trabalhos têm de ser montados, cada vez mais."

Uma das nossas preocupações na montagem, observa Celulari, foi encontrar o tom certo para uma história que poderia trazer em si um enorme potencial para pieguices. "Desde o começo, nós quisemos fugir ao máximo do melodrama", afirma. "A direção do (Gilberto) Gawronski foi nesse sentido, em evitar que caíssemos em um dramalhão."

Se tal objetivo já estava claro no processo de construção do espetáculo, ficou ainda mais evidente durante as viagens que a peça fez, em festivais e em diversas cidades pelo Brasil. "Quanto mais nós evitávamos apelar para a emoção, caindo em saídas fáceis, mais a peça se tornava poderosa, mais tocava a plateia."

Celulari acredita que a boa recepção que Nem Um Dia... tem encontrado, assim como o tipo de retorno que o elenco e toda a equipe técnica vem recebendo após as apresentações, demonstra a força do texto e mostra também que a montagem tomou o caminho certo. "As pessoas vêm comovidas falar conosco, contar histórias", diz o ator. "Embora tratemos de um tema muito sério e doloroso - a morte de um pai -, eu não considero o espetáculo melancólico. Se emociona, ele também provoca bastante risadas em quem o assiste e se enxerga ali, no palco."

Natural de Bauru, Edson Celulari aos 53 anos transpira maturidade em suas escolhas e atuações, e é com ímpeto e alegria juvenis que ele estreia a temporada paulistana de Nem Um Dia se Passa Sem Notícias Suas. "Estou feliz por subir ao palco com esse texto, com o Pedro. É um imenso prazer." O teatro parece ter esse dom de manter os espíritos sempre jovens. Com ele, não é diferente.

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