Um ateu diante de palavras de cristo

"Deus, Pai, Senhor, aqui me tens (...) Sou o da cruz alta, a que está ao centro, e os homens que me fazem companhia (...) são dois ladrões vulgares, daqueles que se contentam com roubar pouco, que se fossem dos que roubam muito de certeza não viriam aqui crucificados." Com essas palavras, Saramago iniciou seus comentários sobre cada uma das sete últimas palavras de Cristo. É emocionante vê-lo, na sala de sua casa, nas Ilhas Canárias, lendo seu texto, no DVD As Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz, lança agora pelo músico catalão Jordí Savall.

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2010 | 00h00

Como o escritor português, Savall vai além de sua arte para pensar de modo crítico a realidade. Talvez não tão ácido quanto Saramago, ele faz de cada gravação um alerta ao mundo contemporâneo. As Sete Palavras foram encomendadas a Haydn em 1787 por clérigos de Cádiz ? e Savall recria no DVD esse acontecimento: as luzes apagadas na igreja e prédicas entre a execução de cada um dos sete adágios. Foi normal a escolha do teólogo catalão Raimon Panikkar, mas surpreendeu Saramago como segundo "pregador", já que ele era ateu. Mas o eixo de seu universo criativo sempre girou em torno da Bíblia e do catolicismo, até seu derradeiro livro, Caim, e seu último testemunho audiovisual registrado neste raro DVD.

"À morte deveria assistir-se em silêncio", provoca Saramago ao comentar a primeira das últimas palavras de Cristo: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem." Pergunta-se: "E eu, virei a saber o que fiz no mundo?" Dúvida que se dissipa no fim do comentário da quarta palavra: "Razão tinha aquele que disse que Deus é o silêncio do universo e o homem o grito que dá sentido a esse silêncio. Acabe-se o homem e tudo se acabará."

Tudo neste DVD é especial. A qualidade da interpretação de Savall regendo a sua orquestra Le Concert des Nations já bastaria; mas ele vai mais longe. Transfere à música uma dimensão estética incomparável. Num texto primoroso como o de Saramago, pergunta-se se "podemos hoje desfrutar inteiramente da mensagem que Haydn nos quer transmitir com a sua música, ignorando o contexto da sua criação e função original". Relembra os dois séculos que nos separam, "testemunhas da dura luta do homem por lenta e difícil conquista de ideais de justiça e liberdade, tolerância e solidariedade; dois séculos que, apesar disso e de todo o enorme progresso científico e tecnológico, foram também, e ainda o são, testemunhas de terríveis atos de crueldade e fanatismo, de barbárie e inumanidade".

JOÃO MARCOS COELHO É JORNALISTA

E CRÍTICO MUSICAL

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