Um ateliê para a criação coreográfica

Projeto da São Paulo Companhia de Dança destinado à experimentação rende três novas peças

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2012 | 02h10

Existe uma só palavra para expressar 'um olhar compartilhado por duas pessoas, cada uma desejando que a outra tome uma iniciativa para que algo aconteça, porém, nenhuma dela age'? Existe. É mamihlapinatapai, palavra originária da língua indígena iaghan, de uma tribo da Terra do Fogo.

É exatamente Mamihlapinatapai o nome da coreografia criada pelo mineiro Jomar Mesquita para o mais novo projeto da São Paulo Companhia de Dança: 1.º Ateliê de Coreógrafos Brasileiros. "Na coreografia, trabalhamos a relação de desejo entre homem e mulher e, ao mesmo tempo, com um ingrediente a mais e de forma natural - o desejo que não se realiza", explica o artista, que, para criar esta peça desconstruiu a dança de salão.

"Vim com uma pesquisa de palavras diferentes e poéticas, inexistentes em português. E vai ao encontro de meu universo, que é em duo. Quando não tenho uma mulher para dançar, me sinto nu", diz Mesquita.

A experiência de reunir novos nomes para criar para a SPCD se revela experiência rica, em que coreógrafos e bailarinos se contaminam e criam juntos. "A ideia é trazer para a companhia mais do que está se produzindo na cena contemporânea brasileira. Desde o começo, temos pelo menos uma vez por ano um coreógrafo brasileiro criando para nós", relata Inês Bogéa, diretora do grupo.

Desta vez, são três talentos da dança nacional que assinam o novo espetáculo, que estreia no dia 12, às 21 h, no Teatro GEO, com segunda apresentação no dia 13. "A dança está pulsando. Há muitos criadores apontando caminhos bem distintos desta nova dança no País. E a companhia abre espaço para novos gestos e ideias, possibilitando o diálogo, de criações específicas para os artistas da casa e por coreógrafos que têm linguagens já reconhecidas", continua Inês.

Mesquita é diretor da Mimulus Cia. de Dança, de Belo Horizonte, e divide a cena com outros três talentos: Alex Neoral, diretor artístico da Focus Companhia de Dança, do Rio; e Rui Moreira, diretor da Cia. Será Quê?, de Belo Horizonte; além de Rodrigo Pederneiras, que também integra a programação com Bachiana n.º 1, criada para a SPCD e teve estreia no primeiro semestre deste ano.

Agora, criaram três coreografias de duração de cerca de dez minutos para 48 bailarinos da SPCD. Moreira criou Azougue e Neoral, Por Menores. "Não foi tarefa fácil, pois queríamos todos os bailarinos para nós", brincou Neoral, que em Por Menores traz um balé marcado pelos detalhes dos movimentos, sobre o Andante da Sonata n.º 2 para violino solo e Sarabande da Partita n.º 1 para violino solo, de Johann Sebastian Bach.

"Minha principal ideia foi pensar na troca, que foi boa para todos", conta Neoral. "Nessa obra, penso no movimento, na pesquisa de duo que desenvolvo com minha companhia. Acho que esse tipo de duo, em que as forças se dividem entre homem e mulher, é algo novo para os bailarinos da SPCD. O trabalho, intimista valoriza a proximidade dos intérpretes."

Já Rui Moreira foi buscar inspiração na cultura popular pernambucana para criar o belo e vigoroso Azougue, que envolve elementos da cultura afro-brasileira e em que o som, a música e timbre dos tambores têm lugar de honra. "Me interesso muito pela antropologia da dança. E isso tem muitos significados. No caso de Azougue, a referência é ao azougue do maracatu rural, no qual os caboclos de lança utilizavam um preparado energético com pólvora à base de cachaça e de uma erva chamada azougue, para aguentarem o 'baque' do carnaval e o peso da roupa", explica o coreógrafo. "E fala também da pessoa inquieta, que não se deixa abater, que tem uma vibração acima do normal."

É esse azougue e a essência da linguagem de cada um dos coreógrafos e criadores que poderão ser apreciados no Teatro Geo.

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