Um assunto espinhoso

O nazismo e Hitler fizeram coisas abomináveis, imperdoáveis, que merecem a permanente execração de todos. A gravidade da catástrofe por eles provocada - cuja expressão maior é o Holocausto - é tão grande, que se discute se o trauma dela decorrente é passível de representação ou não. Deveria a catástrofe ficar em seu estado bruto, permanentemente a nos interrogar, ou deveríamos tentar representá-la, simbolizá-la? A dúvida decorre do temor que a grandeza da tragédia acontecida seja banalizada e diluída, que se desvaneça a memória dos milhões vitimados. Vem daí a não aceitação de qualquer manifestação sobre ela que não seja sua explícita condenação, a intolerância com piadas e brincadeiras, entendidas como ofensivas e desrespeitosas.

Sérgio Telles, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2011 | 00h00

Temos dois exemplos recentes disso. Um, as fortes reações à piada do comediante Danilo Gentili sobre o metrô em Higienópolis, que o levaram a pedir desculpas e cancelar o lançamento de seu programa na TV. Outro, o ocorrido com Lars von Trier, considerado persona non grata e em seguida "expulso" do Festival de Cannes após ter dito numa entrevista, em tom de brincadeira, que era nazista e que entendia Hitler.

Colocada no contexto adequado, a punição de Lars von Trier revela aspectos inadvertidos da questão.

Frente ao nazismo e a Hitler, a França gostaria de ser vista como o país da Resistência, cheia de heroicos maquis a desafiarem os alemães, uma imagem grandiloquente forjada por De Gaulle que esconde a vergonhosa realidade do colaboracionismo oficial e de grande parte da sociedade, a tranquila submissão ao 3.º Reich por parte de Pétain e seu governo de Vichy. O exemplo mais chocante da colaboração se deu quando, por iniciativa das autoridades francesas e não por exigência dos alemães, cerca de 13 mil judeus foram confinados no Vèlodrome d"Hiver e de lá enviados para os campos de extermínio, fato só reconhecido pelo Estado francês em 1995, por Jacques Chirac.

No começo deste ano, Alexandre Jardin, neto do prefeito de Paris na época da ocupação alemã, lançou pela Editora Grasset o livro Des Gens Trés Bien (algo como "Pessoas de Bem"). Ali, ele diz que o avô colaborava sem nenhum constrangimento com as autoridades nazistas, um comportamento aceito e compartilhado por todos ao seu redor. O livro tem vendido aos milhares e suscitado grande celeuma, alimentando a curiosidade de muitos em relação ao secreto passado político de seus familiares.

Efeitos do colaboracionismo no psiquismo dos franceses foram detectados por Roland Barthes em Sabão em Pó e Detergentes, um texto curto e perspicaz publicado em seu Mitologias. Ele relata que, no pós-guerra, a França foi tomada por uma febre de limpeza e higiene, induzida por fortes campanhas publicitárias de produtos de limpeza. Usando a semiologia e recursos da psicanálise, Barthes analisa a retórica dessas campanhas e conclui que seu sucesso se devia ao fato de expressarem elas o desejo coletivo inconsciente de eliminar a sujeira da guerra da Argélia e, mais negado ainda, as impurezas da colaboração com os nazistas, fatos que enodoavam o orgulho nacional.

A atitude do Festival de Cannes com Lars von Trier fica ainda mais sintomática, quando se sabe que em 1956 o filme Noite e Neblina (Nuit et Bruillard), de Alain Resnais, foi censurado pelo governo francês e impedido de concorrer naquele Festival, sendo exibido numa mostra paralela, justamente por denunciar o colaboracionismo.

Frente a esses fatos, fica então a pergunta - o rigor no julgamento de Trier deveu-se ao respeito às vitimas da catástrofe ou era uma forma de reforçar a repressão do passado colaboracionista, evocado nas falas brincalhonas de Trier, de "ser nazista" e "entender Hitler"?

É preciso então estar atento a esta possibilidade, e estar alerta contra outra difundida falácia, que é o atribuir todos os crimes nazistas à pessoa de Hitler. Por mais assustador que seja, é necessário lembrar que, direta ou indiretamente, milhões de alemães, austríacos e europeus de vários outros países expressaram concordância, simpatia e admiração pelo nazismo e suas promessas de eliminar o comunismo e implantar o domínio de uma raça superior. É por isso mesmo que falar sobre o assunto é problemático não só na França, pois em muitos países da Europa paira ainda a lembrança reprimida da colaboração. E é justamente esta a questão mais importante levantada pelo nazismo: como entender que milhões de pessoas tenham embarcado numa ideologia delirante que prometia a constituição de uma raça superior, tendo como correlato a eliminação das raças tidas como inferiores.

O nazismo ainda hoje levanta enigmas para nossa compreensão e não temos alternativas a não ser tentar resolvê-los. Só podemos fazer isso se representarmos e simbolizarmos a catástrofe, sem temer desmerecê-la com isso. Em assim fazendo, se lhes dissolve a aura de inacessibilidade, revelando-se então seus contornos reais e humanos, devolvendo-nos a capacidade de compreender e agir. Ou seja, para tanto é importante, por um lado, conhecer a psicopatologia de Hitler e, por outro, tentar entender o fascínio que a ideologia nazista despertou em tanta gente.

Sobre Hitler há inúmeras biografias publicadas. Aos interessados, sugiro a leitura de seu perfil psicológico feito em plena guerra por um professor de psiquiatria a pedido da OSS (Office of Strategic Services, serviço de inteligência dos Estados Unidos) atualmente depositado na Universidade de Cornell e disponível em http://library.lawschool.cornell.edu/WhatWeHave/SpecialCollections/Donovan/Hitler/index.cfm.

Quanto à ideologia da raça superior, pergunto-me se ela não revela, levado às ultimas consequências, o desejo narcísico de negar nossas impurezas, nossas deficiências, nossa feiura física e moral, todas as nossas taras que, por não as aceitarmos em nós mesmos, terminamos por projetar no outro. O delírio de uma raça superior seria o patamar mais avançado e radical desta ideia, a criação de homens sem nenhuma jaça, definitivamente livres de todas as limitações próprias de nossa sofrida humanidade. Se assim for, o que vai impedir a sedução da ideologia da raça pura é sua análise, é mostrar como ela atende a irreais exigências narcísicas de perfeição, fruto da intolerância com as falhas e erros que são de todos nós, seres humanos.

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