Um assassino à mesa com Werner Herzog

O último dia de filmagens de My Son, My Son, What Have You Done nos EUA mostra que o diretor se mantém fiel à vanguarda da expressão artística

Jeremy Kay, The Guardian, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2010 | 00h00

Recentemente, os filmes de Werner Herzog têm se aproximado perigosamente do cinema comercial. Seu filme de 2006 sobre a Guerra do Vietnã, O Sobrevivente, foi bem recebido, enquanto seu Vício Frenético foi lançado no mês passado e conquistou a admiração de todos. Será que o diretor alemão famoso por sua idiossincrasia decidiu se comportar? Longe disso. Seu mais novo filme, há pouco lançado no Festival Internacional de Cinema de Edimburgo, mostra que ele não abandonou a vanguarda da expressão artística.

My Son, My Son, What Have You Done deixou perplexos muitos críticos americanos, mas enfeitiçou outros, que chamaram o filme de joia atormentada. Adaptada a partir da história de Mark Yavorsky, um ator de San Diego que em 1979 assassinou a própria mãe com uma espada que seria usada numa produção de Oresteia (por sua vez uma história de matricídio), o filme avança e recua no tempo. Herzog nos transmite a narrativa em fragmentos, alternando entre investigação policial e flashback, associando trechos de uma melancolia mortal a momentos de comédia do absurdo; há ecos de suas obras anteriores, como Aguirre - A Cólera dos Deuses e Também os Anões Começaram Pequenos.

O filme foi alvo de intensas especulações antes mesmo do início de suas filmagens. Para começar, o longa-metragem é o primeiro projeto conjunto de Herzog (o diretor) e David Lynch (produtor executivo).

Havia também o elenco: Willem Dafoe, Chloë Sevigny e Michael Shannon, astro em ascensão que havia roubado a cena de Leonardo DiCaprio e Kate Winslet em Foi Apenas um Sonho. E não podemos nos esquecer da temática explosiva. Quando um amigo me convidou para acompanhar o último dia de filmagens nos EUA, foi difícil resistir.

Primeira cena. Em abril, quando cheguei ao hotel Westin Bonaventure, no centro de Los Angeles, a primeira coisa que pensei foi que aquele prédio era simples demais para abrigar um filme que prometia tanto mistério. A equipe estivera trabalhando desde cedo para preparar a primeira cena. Herzog chegou ao meio-dia, vestindo calças do Exército e um casaco esportivo preto, transmitindo uma impressão de vigor e felicidade, como se tivesse acabado de chegar ao fim de uma viagem pela Amazônia.

Na verdade, era exatamente o que havia ocorrido. Herzog tinha acabado de voltar de uma viagem à Bacia Amazônica, no Peru, onde estivera filmando numa locação próxima de onde foi filmado Aguirre quase 30 anos atrás. As imagens tinham de ser feitas durante a época do ano em que o nível do Rio Urubamba se encontra em seu ponto mais profundo e traiçoeiro: nesta cena crucial, o personagem de Shannon, Brad McCullum (adaptado de Yavorsky) observa enquanto seus amigos morrem num acidente na água.

Enquanto Herzog se reunia discretamente com a equipe no bufê de café da manhã do hotel, entre empresários em viagem de negócios e frequentadores de um simpósio sobre patinação no gelo, Eric Bassett, sócio de David Lynch nos últimos 10 anos, me deixou a par dos detalhes.

"Uma pequena voz dentro da cabeça de McCullum diz a ele que não participe da viagem ao rio. Ele segue o conselho e escapa da morte. Mais tarde, a voz pede a ele que mate a própria mãe." Subitamente alguém gritou: "Ação!" Shannon, com os cabelos desgrenhados, de bigode e paletó azul, levantou-se de um piano perto do bufê do café da manhã. Grace Zabriskie, que já trabalhou outras vezes com Lynch e interpretou Sarah Palmer em Twin Peaks, faz neste filme o papel da condenada mãe de McCullum. Ela caminha até o filho. Os dois andam na direção dos elevadores e sobem até o segundo andar. Udo Kier, que interpreta o professor de teatro de McCullum, segue-os de perto num terno de veludo roxo, com os olhos de raio laser fixados no chão.

"Corta!" Os três voltam ao piano e Herzog vai conversar com Shannon. Kier leva aos lábios uma garrafa d"água e conversa com a equipe. Grace estuda seus sapatos. Herzog os convoca novamente, e lá vão eles, de novo e de novo, mas desta vez o diretor conversa com Grace enquanto Shannon permanece ao piano, com a cabeça baixa. Outra vez eles recomeçam, e novamente o diretor os convoca para gravar outra tomada.

"Qual é a cena que estão gravando?", perguntei a um assistente de direção. "Eles sobem pelo elevador", revelou ele, acrescentando: "Werner é impressionante. Quando ele começa a filmar, torna-se totalmente concentrado no que está fazendo."

Estava claro que o dia seria longo. Que tomada era aquela, a oitava? "Décima terceira", me corrigiu um assistente de produção. Homens e mulheres com fones de ouvido seguravam pranchetas e jogavam o peso do corpo de um pé para o outro. Herzog, conservando a boa aparência aos 60 anos, parecia imune ao desconforto físico enquanto se reunia com o elenco, olhando pelas lentes da câmera e movimentando o braço após a conclusão de uma tomada para indicar que a cena teria de ser filmada outra vez.

Química. "Corta!" Movimento dos braços. "Corta!" Movimento dos braços. "Corta!" O carrossel deu volta após volta até que, gradualmente, a química entre eles começou a funcionar: Shannon, Grace e Kier se dissolveram, transformando-se em McCullum, sua mãe e seu professor de teatro, pairando ao nosso redor numa solene união. Finalmente, Herzog ficou satisfeito. O diretor conseguiu a cena que procurava. Para meu olhar de leigo, a tomada era exatamente idêntica às anteriores. Mas o diretor estava contente.

Parte da equipe fez uma breve pausa para o almoço. Outros começaram a preparar a próxima cena no segundo andar, na qual os atores emergem do elevador e passam pelo ginásio do hotel, onde um homem usando uma máscara de oxigênio é visto correndo numa esteira. A máscara era necessária: Herzog o manteve ocupado por muito tempo.

O filme conta a história de McCullum de maneira não-linear. Ficamos sabendo do matricídio em questão de minutos. O detetive de Dafoe vê-se envolvido, e a polícia sitia o lar de McCullum, o que constitui o principal núcleo de ação do filme. Chloe interpreta a noiva de McCullum. A cena que assisti se passa em Toronto: depois de ser demitido de uma produção de Oresteia por desconcentrar os demais envolvidos, McCullum volta ao hotel depois de acompanhar um ensaio.

Herzog gosta de filmar com táticas de guerrilha. O hotel lhe deu permissão para as filmagens, mas a equipe ainda teria de convencer os hóspedes. Em certo momento, durante a segunda cena, correndo num sofá atrás do fotógrafo como se estivesse a bordo de um helicóptero, Herzog desviou da mobília e mostrou vigorosamente o polegar a um transeunte, agradecendo a ele por não interferir com os atores que avançavam em sua direção.

Na recepção, encontrei Herb Golder, professor da Universidade de Boston que apresentou ao amigo Herzog a história de Yavorski; os dois escreveram juntos o roteiro. "Este jovem sai de um ensaio da Oresteia, de Ésquilo, e mata a própria mãe", disse Golder. "A história me pareceu intrigante, e assim contratei um detetive para encontrar o sujeito, e estabelecemos um relacionamento." Yavorski foi condenado por homicídio culposo. Posteriormente, um juiz o inocentou, aceitando a alegação de insanidade, e ele foi mandado a um hospital de segurança. Depois de libertado, ele morreu em 2003.

Herb Golder explicou que, no filme, McCullum vê-se desiludido com a vida e encontra consolo no teatro, que ele acredita conter a verdade genuína.

"Trata-se na verdade da história de um jovem precoce que habita dois mundos e se vê deprimido pela artificialidade do cotidiano. Ele começa a procurar um mundo em outro lugar, e a tragédia está no fato de isso resultar na morte de sua própria mãe." A equipe decidiu encerrar o dia às 17h07. Todos festejavam e distribuíam tapinhas nas costas uns dos outros. Consegui alguns momentos com Shannon, que falava quase sem fôlego e caminhava como um maratonista reduzindo o ritmo após uma corrida. "Werner é um diretor lendário, e ele tem consciência disso. Ele sabe muito bem o que quer de uma cena", revelou o ator.

China. Ele se afastou, e observei Herzog avançando para a saída em busca de um táxi. "Shannon ficará muito famoso depois deste filme", disse-me ele com uma monocórdica e discreta afetação alemã. "Falei que o queria como astro deste filme e, como aquecimento, convidei-o para interpretar um pequeno papel em Vício Frenético." Herzog contou que estava prestes a voar até Kashgar, China, para o segmento final das filmagens de My Son, mas pediu que eu não mencionasse a viagem até que ele tivesse garantido a obtenção das permissões necessárias.

O diretor planejava fixar uma câmera na cabeça de Shannon enquanto este caminhava por um mercado agitado. "Estive lá há muito tempo atrás, e sempre quis voltar ao lugar para filmar algumas cenas." Olhando por cima dos ombros à procura de um táxi, ele acrescentou: "Quis provar algo com este filme: que é possível produzir um longa-metragem de alto calibre com menos de US$ 2 milhões. Na tela, o filme transmitirá a aparência de ter custado US$ 40 milhões. É assim que se faz as coisas quando surge uma crise no financiamento dos projetos cinematográficos."

E quanto a Lynch? "Gostamos um do outro e nos respeitamos. Nós nos conhecemos a partir de certa distância. Falei a ele que tinha um projeto, e ele disse que deveríamos rodá-lo juntos, e concordei. E então revelei que seu nome seria incluído como produtor executivo." Um táxi se aproximou. Qual é a ideia por trás de My Son, perguntei. "Trata-se de uma história de assassinato", revelou ele, sorrindo levemente enquanto entrava no carro. "Uma bizarra história de assassinato." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

QUEM SÃO

WERNER HERZOG

DIRETOR

Werner Stipetic, nascido em Munique, na Alemanha, no dia 5 de setembro de 1942, afirma ser sobretudo um "contador de histórias". Sempre associado ao novo cinema alemão e à temática complexa, cedo adotou o sobrenome artístico Herzog, com o qual se tornou conhecido em filmes como O Enigma de Kaspar Hauser, Nosferatu e Fitzcarraldo.

DAVID LYNCH

DIRETOR/PRODUTOR

Nascido no Estado de Montana, nos EUA, em 20 de janeiro de 1946, David Keith Lynch, diretor de filmes como Veludo Azul, Cidade dos Sonhos, A Estrada Perdida, realiza agora, na função de produtor executivo, seu primeiro projeto em conjunto com o diretor Werner Herzog. Trata-se de My Son, My Son, que deixou muitos críticos americanos perplexos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.