Um artista que assimilou os elementos da rua

Luciano Spinelli, sociólogo e jornalista

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2010 | 00h00

O sociólogo e jornalista brasileiro Luciano Spinelli, de 28 anos, é pesquisador do Centro de Estudos sobre o Atual e o Cotidiano (Ceaq) da Universidade Paris 5, Sorbonne, onde se debruça sobre as relações entre o grafite e a comunicação de massas. Spinelli comenta entrevista concedida ao Estado em Paris o papel de Jean-Michel Basquiat no reconhecimento do grafite como expressão artística.

O que, afinal, é o grafite, e quais as diferenças entre a pichação de rua e o trabalho de um pintor como Basquiat?

O grafite pode ser interpretado de várias formas. Ele pode se limitar à escrita de um nome em um trem ou no mobiliário urbano, por exemplo. Esse tipo de grafite hip-hop nasceu nos anos 70, em Nova York, e era explorado por personagens como Seen, Futura 2000 ou Taki 183, um motoboy que escrevia seu nome e o número da rua em que morava por onde passasse. Sua assinatura era sua obra, e sua abordagem era não-figurativa. Basquiat até chegou a assinar como Samo, Same Old Shit, mas seu grafite é diferente do grafite hip-hop. Basquiat fazia obras figurativas, baseadas em personagens, figuras humanas caricatas provavelmente inspiradas nos livros de anatomia que ganhou de sua mãe na infância. É arte figurativa, assim como fazia Keith Haring, por exemplo.

Como essa expressão artística migra das ruas para as galerias?

O grafite pode ser entendido como uma subjetivação do espaço público que não tem um fim lucrativo, pelo menos em primeira instância. Basquiat também não tem fim lucrativo em um primeiro momento, mas, no instante em que faz um grafite na frente de uma galeria de arte, isso é um ato pensado. Nessa época, ele vive de casa em casa, até mesmo na rua, e precisa vender seu trabalho para pagar sua vida, seu vício em heroína. O mercado de arte americano já havia percebido que existia um potencial artístico e comercial no grafite figurativo. Ao ser "descoberto", Basquiat rapidamente se torna uma pequena celebridade do East Village de Nova York. Aos 23 anos, já expõe no Whitney Museum of American Art.

E nos quatro anos seguintes, torna-se celebridade internacional das artes visuais. É uma espécie de consagração do grafite?

Basquiat é um exemplo de grafite que obtém o reconhecimento do mundo das artes. Ele está entre os precursores que fazem um tipo artístico de grafite, algo figurativo e comercializável. Isso não quer dizer que ele pasteurize sua arte, como acontece por vezes na chama street art. A arte de Basquiat assimila elementos da rua, é influenciada pela cultura negra afro-americana. Ele explora as manifestações cruas de mundo alternativo, de quem usa drogas, de quem vive na rua, misturando-as ao pop da galeria. Basquiat é ao mesmo tempo o cara que viveu nas ruas, vendendo camisetas para ter o que comer, e o artista que dialoga com Andy Warhol e sai com a Madonna, dois ícones do pop.

Mesmo absorvido pelo mercado da arte, Basquiat continua a pintar em madeira, em utensílios urbanos. O que isso significa?

Talvez seja uma tentativa de levar a cidade à galeria. Talvez ele tentasse voltar à rua, aos seus suportes urbanos. Mas, quando deixa as ruas e migra para as galerias, esse suporte urbano rompe o processo comunicativo contido nos grafites que integram a cidade polifônica. Na rua, o grafite é uma das vozes a comunicar-se com a população. Na galeria, não.

Por quê?

Em uma galeria, a pintura é "enquadrada". A função da moldura é delimitar o que é obra de arte e o que não é, ou seja, o muro. Nas ruas, o grafite une as duas coisas, criando um novo resultado, uma química irreversível, uma fusão entre a obra e o muro. Exposto pela cidade, o grafite torna-se representativo para uma parcela da população que lê esses escritos urbanos.

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