Niels Andreas/Estadão - 21/04/2007
Niels Andreas/Estadão - 21/04/2007

Um apurado olhar de repórter

De 1940 até sua morte, em 1977, Clarice Lispector escreveu cerca de 5 mil trabalhos jornalísticos; a pesquisadora Aparecida Maria Nunes fala sobre essa obra, reunida agora em uma nova edição

UBIRATAN BRASIL - O Estado de S.Paulo,

17 de novembro de 2012 | 02h07

Antes mesmo de ser reconhecida como grande escritora, Clarice Lispector colaborou ativamente na imprensa, atuando como jornalista, estudante de Direito, colunista feminina, ensaísta e até mãe. Era uma forma de complementar a renda mensal. Ao longo da carreira, Clarice escreveu cerca de 5 mil textos, entre fragmentos de ficção, crônicas e colunas femininas, para diversos jornais e revistas, além de realizar mais de 100 entrevistas, a primeira delas, em 1940, com o poeta Tasso da Silveira. Uma boa amostragem desse material está em Clarice na Cabeceira - Jornalismo, lançado agora pela Rocco.

"Clarice tinha estilo próprio para seus textos para a imprensa. Mas procurava aprender e apreender a técnica de alguns gêneros jornalísticos", comenta a jornalista e professora universitária Aparecida Maria Nunes, responsável pela coletânea, que traz também textos inéditos em livro. "Quanto à crônica, chegou a conversar sobre como escrever com vários escritores, inclusive com Rubem Braga. Nas páginas femininas, quando assinou sob pseudônimos, o texto clariciano se torna acessível e adquire o tom da receita e do conselho. A Clarice jornalista consegue falar e se fazer entender para o leitor heterogêneo, pouco acostumado a reflexões de ordem existencial."

Segundo a pesquisadora, ao longo dos quase 40 anos de trabalho na imprensa brasileira, a Clarice jornalista não alterou seus interesses, temas, linguagem. Aparentemente só se adaptou a cada gênero jornalístico, pois imperava seu estilo único. "A entrevista com o escritor Tasso da Silveira nos anos 1940 comprova isso", explica. "Lá, Clarice era iniciante no jornalismo e desconhecida escritora. Ainda não havia lançado Perto do Coração Selvagem. Mas o modo de entrevistar, de escrever o texto da entrevista e de questionar o interlocutor são os mesmos da Clarice jornalista décadas depois para as revistas da Bloch editores."

Ela era, antes de tudo, profissional. Dedicada. E procurava realizar o trabalho de entrevistar da melhor forma. Foram feitas, para a Bloch, 87 entrevistas e muitos dos interlocutores eram amigos da escritora ou pessoas próximas a ela por conta do período em que morou no exterior, acompanhando o marido diplomata, ou por serem artistas ou escritores. "Com Fernando Sabino e Hélio Pellegrino, por exemplo, o encontro marcado para a entrevista era aproveitado para jogar conversa fora em algum restaurante. A intimidade entre Clarice e eles chegava a ponto de a entrevista propriamente dita não ocorrer frente a frente", comenta Aparecida. "Para ajudarem a amiga nesse trabalho, muitas vezes, o questionário, elaborado por Clarice sempre de antemão, era entregue e respondido em casa pelos entrevistados. E a ocasião da entrevista era transformada em pretexto para conversa informal entre amigos."

Em outros casos, a escritora marcava entrevista em seu apartamento, no Rio. E, como observa a pesquisadora Aparecida, ela se sentia lisonjeada em receber Bibi Ferreira e Elke Maravilha. Em meio à conversa, Geny, a cozinheira, servia um café e a descontração acontecia de fato. "Há ainda a célebre entrevista com o primeiro-ministro de Portugal Mário Soares, no Palácio de São Clemente, no Rio", conta. "Clarice havia sido convidada para a recepção, mas aproveita o momento e solicita entrevista, que lhe é concedida meia hora antes da solenidade. Para surpresa dela, Mário diz ser leitor de Clarice e apreciar a profundidade dos textos. Então, o ofício de entrevistar, podemos concluir, nem sempre foi enfadonho."

A escritora buscava deixar o entrevistado sempre à vontade - acreditava que deveria se expor para captar a confiança e conseguir mostrar o lado bom do interlocutor. "O leitor toma simultaneamente conhecimento de particularidades dos entrevistados de Clarice e da própria Clarice. Nós ganhamos com isso", afirma. "Clarice comenta, por exemplo, passagens de sua vida. Com o escritor Nelson Rodrigues, fala do período em que esteve hospitalizada por causa do incêndio que sofreu. Ou então preocupações com o ofício de escrever ficção e fazer jornalismo. Com o cronista Henrique Pongetti, ela conversa sobre como não deixar o jornalismo interferir na literatura e do desgaste de escrever crônicas semanalmente, correndo o risco da autorrevelação, à sua revelia."

O livro evidencia também como o contato com os entrevistados provocava, na maioria das vezes, boas surpresas. É o caso do momento em que Clarice garante não ser aquele o melhor dia para fazer qualquer entrevista por estar gripada. Ou ainda a inusitada conversa com o cronista Carlinhos Oliveira, no restaurante carioca Antonio's: nenhuma palavra foi pronunciada. "Clarice e Carlinhos trocavam bilhetes. Havia cumplicidade entre os dois e o texto da entrevista é delicioso. Clarice coloca reticências nos palavrões escritos por ele. Em outra passagem, ele pede a ela que deixe de 'frescura'. Até Clarice confidenciar que vai dar outra oportunidade a Carlinhos porque ele não se mostrou de corpo inteiro e, aí, temos um viés seguido pela Clarice jornalista", diverte-se Aparecida. Segundo ela, a escritora gostava de fazer entrevistas porque era curiosa. "Mas detestava dar entrevistas, porque a deformavam. Com isso, fica implícito o pensamento de que procurava, enfim, traçar um perfil o mais verdadeiro de seus interlocutores."

Clarice preocupava-se ainda com a preparação de suas colunas femininas, buscando detalhes em todas as fontes de pesquisa. Ela contava com o auxílio de uma amiga chamada Lothe, que fornecia revistas como Paris Match, Jude France e Bunte. Com isso, não apenas escrevia o texto como também recortava fotos com modelos de roupas que eram sugeridas como opção de ilustração. A moda também era um caminho para Clarice exercitar seu lado contestador - é o caso da entrevista com Teresa Souza Campos, uma das mulheres mais elegantes da época. Na abertura do texto, escrito em 1968, Clarice confessa que desejou falar com ela justamente porque não simpatizava com a socialite. E pretendia inquirir "a mulher mais elegante" não para tratar de moda e beleza, mas para conversar sobre outros assuntos que considerava urgentes, como "o que você é?" ou "por quem você torce na Guerra do Vietnã?".

"Ao longo do texto, Clarice, no entanto, deixa transparecer certa frustração pelo fato de Tereza ser mais simpática e inteligente do que o esperado. Ela soube como responder às provocações e irreverências da escritora, conquistando sua confiança." Aparecida considera notável a entrevista que Clarice fez, pouco antes de morrer, em dezembro de 1977, com a artista plástica Flora Morgan Snell. Do ponto de vista jornalístico, foi um fiasco. "O diálogo não se estabelece. As respostas de Flora são lacônicas", observa. "Mas, para se conhecer alguns dos princípios pelos quais Clarice se pautava para entrevistar, o texto é sintomático. Ela não esconde a perplexidade diante do suntuoso apartamento na Vieira Souto (residência da artista e local da entrevista) e do mordomo fardado que a recebe. A própria entrevistada a surpreende, pela maneira como estava vestida e maquiada (toda em tom lilás) e, sobretudo, pelo penteado altíssimo, em forma de 'bolo'. A empatia não acontece, não temos uma entrevista nos moldes jornalísticos, o diálogo não se efetiva, o clima entre entrevistadora e entrevistada é cáustico, mas há uma Clarice que procura ser honesta e sincera com seu leitor."

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