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Um ano sem abraços

Seu Clemente suspirando pela permanência do vírus por mais um semestre pelo menos

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2020 | 03h00

O senhor Clemente nascera em uma família católica. Suas irmãs, Piedade e Socorro, cresceram pias e bentas. Sempre foram as primeiras a chegar às missas diárias. Por vezes, é verdade, eram as únicas... Conheciam os padres todos pelos nomes, davam-lhes presentes, mimos, cercavam a igreja de cuidados, paninhos feitos à mão. Organizavam quermesses, campanhas de solidariedade, distribuição de agasalhos e cobertores. E, de tudo o que mais amavam na comunidade cada vez mais diminuta e envelhecida daquela velha paróquia, era o momento de confraternização da Paz de Cristo. Logo depois do Pai Nosso e de palavras de paz que invocam o Evangelho, as irmãs, sem conseguirem conter o sorriso, abraçam uma a outra e, em seguida distribuem longos abraços e cumprimentos pelo resto da comunidade. Não adiantou o pároco João mostrar a elas recomendações do papa Bento XVI dizendo que isso era desnecessário: não precisavam varrer a nave toda em busca de gente para cumprimentar e desejar individualmente a “Paz de Cristo”. Bastava, de coração, cumprimentar todo mundo com um aceno, um sorriso e saudar com algum toque apenas quem está a seu lado. “Não precisa, mas todo mundo gosta de um abraço!”, respondeu Socorro, a mais nova, com 65 anos.

No oposto desse sentimento estava Clemente. Havia tempos não frequentava as missas. Dizia que era a idade que o impedia. Não era verdade. Seus 74 anos ocultavam uma saúde férrea, uma enorme disposição para o trabalho fora e dentro de casa. Acordava às 5h, caminhava, fazia uma rotina de exercícios, depois começava seu dia. Espartanamente, despachava do escritório que mantinha há 40 anos com orgulho. Terminava o expediente rigorosamente às 18h, voltava ao lar, jantava com a esposa, lia, assistia o noticiário pela TV e retirava-se para dormir perto das 21h. Não tinha filhos, todavia sua esposa compensara com um mini zoológico na modesta casa da rua Melquíades Souza, 172, onde moravam desde o casamento que já acumulara muitas bodas. Havia papagaio, cacatua, toda sorte de passarinhos. Muitos e diversos aquários, com tartarugas, peixes, até camarões de pequeno porte. Cachorros eram três, que se engalfinhavam com dois gatos por todo o dia. Havia até uma iguana esverdeada. 

O segredo do pio senhor Clemente: na missa, tinha que dar abraços. Mania! Coisa horrível, pensava. Ele suava muito e tinha horror a pensar em estranhos espalhando seu suor pelas suas próprias costas em amplexos longos e que faziam as mãos subirem e descerem. Não sei se podemos chamar o senhor Clemente de misantropo. Talvez uma misantropia leve. Ele tolerava os seres humanos (excetuando seus sobrinhos), gostava das irmãs, amava a esposa (embora odiasse, em segredo, aqueles animais todos). Seu problema não era tão grave quanto daquelas pessoas que amam mais os livros do que seres humanos reais. Ele nem gostava tanto assim de livros. Lia textos devocionais, policiais baratos e romances açucarados. Nada mais. O que o irritava eram os abraços, gente o tocando. Coitado, nasceu no Brasil, onde abraçar e beijar é dogma de fé. Odiava afagos públicos. 

Aí... em março, o governo mandou todo mundo ficar em casa. Ele descobriu ser grupo de risco. Tinha, mais que os outros, que ficar e casa, sem contato físico com ninguém. Podia ser fatal, caso contraísse o coronavírus. O mundo todo padecia com a doença, a economia cambaleava como se tivesse tomado um golpe no queixo. Espoucavam mortos, doentes e hospitais lotados. Ambiente desolador. A cidade de Sirilândia não foi particularmente afetada, porém o temor se instalou. As irmãs tiveram que, finalmente, ceder à internet. Tristes, assistiam a missa pelo computador. Quando outubro chegou, já se aventuravam fora de casa, cada dia com uma desculpa diferente: farmácia, supermercado, sacolão... a pressão sobre o padre João para retomar as atividades paroquiais eram imensas. 

Seu Clemente, no entanto, via tudo, em silêncio, como uma enorme benção. Deus havia enviado um flagelo à humanidade e ele rezava pelas almas dos falecidos e pela recuperação dos doentes. Outro segredo alegrava sua alma: era um júbilo não ver mais ninguém que não dona Iolanda, sua esposa. Claro, havia os bichos todos. Paciência. Já eram 6 meses sem ter que tocar outra pessoa, ganhar ou fingir dar abraços! Com pesar, tinha que admitir para si mesmo que o problema do mundo era a solução de sua vida. A cada notícia de vacina, havia parte de sua consciência que pedia para que a medicina se equivocasse, que demorasse mais. Era errado, ele sabia, porém era o seu desejo inconfessado, um pecado interno que sobrepunha comodidade ao bem estar de todos. Para cada previsão de reabertura e retomada da vida normal, ele alertava para o perigo de uma segunda onda, ainda mais fatal. “Tenho idade, sabe com é, nem mesmo à missa eu consigo ir”! 

Dezembro chegou e com ele a dúvida sobre o ano que vem. Todos sonhando com a volta da normalidade. Seu Clemente suspirando pela permanência do vírus por mais um semestre pelo menos: “um ano sem abraços! Que sonho.” Bons abraços para os esperançosos. 

É HISTORIADOR E ESCRITOR, AUTOR  DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO

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